A Anatomia da Atenção

A ANATOMIA DA ATENÇÃO
Daniel Goleman

NOÇÕES BÁSICAS

Quando era adolescente, adquiri o hábito de fazer os deveres da escola ouvindo os quartetos de corda de Bela Bartok – que eu achava ligeiramente cacofônico, mas ainda assim apreciava. De alguma forma, ignorar aqueles tons dissonantes me ajudava a me concentrar, digamos, na equação química do hidróxido de amônio.

Anos depois, quando me vi escrevendo artigos para o New York Times , me lembrei daquele exercício inicial de ignorar Bartók. No Times, eu trabalhava no meio da editoria de ciência, que naqueles anos ficava enfurnada num ambiente do tamanho de uma sala de aula, na qual haviam sido enfiadas mesas para uma dúzia de jornalistas de ciência e meia dúzia de editores.

Havia sempre um zumbido de cacofonia à Bartók. Por perto, podia haver três ou quatro pessoas conversando. Era possível entreouvir o final de uma conversa telefônica — ou várias — de repórteres fazendo entrevistas. Editores gritavam para o outro lado da sala perguntando quando um artigo estaria pronto. Eram raros, se é que havia, os sons do silêncio.

Ainda assim, nós, os jornalistas de ciência, entregávamos fielmente no horário nossos textos prontos para serem editados, dia após dia. Ninguém jamais pedia: “Por favor, façam silêncio”, para poder se concentrar. Todos apenas redobrávamos nosso foco, abstraindo o barulho ao redor.

Esse foco em meio a um ruído constante indica atenção seletiva, a capacidade neural de mirar em apenas um alvo ao mesmo tempo que ignora um mar atordoante de estímulos chegando, cada um sendo ele próprio um foco potencial. Foi o que William James, um dos fundadores da psicologia moderna, quis dizer quando definiu a atenção como “a repentina tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dos vários objetos ou linhas de pensamento que parecem simultaneamente possíveis”.

Há dois tipos principais de distrações: sensorial e emocional. Os distratores sensoriais são simples: enquanto lê estas palavras, você está abstraindo as margens em branco ao redor deste texto. Outro exemplo: perceba por um instante a sensação da sua língua no céu da boca — este é apenas um em meio a uma interminável onda de estímulos que seu cérebro elimina do contínuo fluxo de sons, formas e cores de fundo, sabores, cheiros, sensações e assim por diante.

Mais desanimadoras são os distratores do segundo tipo: sinais carregados emocionalmente. Embora você possa achar fácil se concentrar para responder um email em meio ao zum-zum-zum de um café, se ouvir alguém dizendo seu nome (eis uma poderosa isca emocional) é quase impossível abstrair a voz que o pronunciou — a sua atração alerta automaticamente para escutar o que está sendo dito a seu respeito. Esqueça aquele e-mail.

O maior desafio até mesmo para os mais focados, no entanto, vem do tumulto emocional das nossas vidas, como o recente fim de um relacionamento que não para de interferir em seus pensamentos. Tais pensamentos entram sem pedir licença por um bom motivo: eles nos fazem pensar o que fazer sobre o que está nos incomodando. A linha divisória entre uma ruminação infrutífera e uma reflexão produtiva está no fato de chegarmos a alguma solução experimental ou algum insight que nos permita abandonar esses pensamentos — ou se, por outro lado, simplesmente continuamos obcecados em torno da mesma preocupação.

Quanto mais o nosso foco é interrompido, pior nos saímos. Por exemplo: uma pesquisa encontrou uma correlação significativa entre a tendência de atletas universitários a terem a concentração interrompida pela ansiedade e o desempenho deles na temporada seguinte. A capacidade de manter o foco em um alvo e ignorar todo o resto opera na região pré-frontal do cérebro. O circuito especializado desta área aumenta a força dos sinais em que queremos nos concentrar (aquele e-mail) e diminui a força do que escolhemos ignorar (aquelas pessoas tagarelando na mesa ao lado).

Como o foco exige que abstraiamos as distrações emocionais, nossa estrutura neural para a atenção seletiva inclui a inibição da emoção. Isso significa que quem tem melhor foco é relativamente imune a turbulências emocionais, tem mais capacidade de se manter calmo durante crises e de se manter no prumo apesar das agitações emocionais da vida.

A incapacidade de abandonar um foco para tratar de outros pode deixar a mente perdida num ciclo de ansiedade crônica. Em casos clínicos extremos, isso pode significar ficar perdido no desamparo, na desesperança e na autopiedade de um quadro depressivo, ou no pânico e na ideação catastrófica de um transtorno de ansiedade, ou nas incontáveis repetições de pensamentos ou comportamentos ritualísticos (tocar na porta cinquenta vezes antes de sair de casa) de um transtorno obsessivo-compulsivo. A capacidade de tirar nossa atenção de uma coisa e transferi-la para outra é essencial para o nosso bem-estar.

Quanto mais poderosa é a nossa atenção seletiva, maior a nossa capacidade de nos mantermos absortos no que estamos fazendo: sermos arrebatados por uma cena de um filme ou acharmos o verso de uma poesia estimulante. Um foco poderoso permite que as pessoas se percam no YouTube ou no dever de casa a ponto de ficar indiferente a qualquer tumulto que possa estar ocorrendo por perto — ou aos pais chamando para o jantar.

É possível localizar os sujeitos focados numa festa: eles são capazes se envolver completamente numa conversa, os olhos presos à outra pessoa e completamente absortos em suas palavras — apesar do alto-falante tocando Beastie Boys a toda altura ao seu lado. Os sem foco, ao contrário, estão continuamente em ação, com os olhos gravitando para qualquer coisa que possa atraí-los, com a atenção à deriva. Richard Davidson, neurocientista na Universidade de Wisconsin, cita o foco como uma das diversas capacidades essenciais da vida, cada uma delas baseada num sistema neural separado, que nos guiam através da turbulência de nossas vidas interiores, nossos relacionamentos e quaisquer desafios que a vida apresentar. 4 Enquanto dura o foco seletivo, segundo Davidson, o circuito principal do córtex pré-frontal fica sincronizado com o objeto daquele feixe de consciência que ele chama de “bloqueio de fase”. Se as pessoas estão focadas em apertar um botão quando ouvem determinado tom, os sinais elétricos de sua área pré-frontal disparam em sincronia precisa com o som em questão.
Quanto melhor for o seu foco, mais forte é o seu bloqueio neural. Mas se, em vez de concentração, houver um emaranhado de pensamentos, a sincronia desaparece. 6 Basta essa queda na sincronia para distinguir as pessoas com transtorno de déficit de atenção.

Aprendemos melhor com a atenção focada. Quando nos focamos no que estamos aprendendo, o cérebro situa aquela informação em meio ao que já sabemos, fazendo novas conexões neurais. Se você e um bebê dividem a atenção em relação a algo cujo nome você pronuncia, o bebê aprende esse nome. Se o foco dele divaga quando você diz o nome, ele não aprende.

Quando nossa mente divaga, nosso cérebro ativa uma porção de circuitos neurais que murmuram sobre coisas que não têm nada a ver com o que estamos tentando aprender. Sem foco, nenhuma lembrança clara do que estamos aprendendo fica armazenada.

FORA DO AR

Hora de um questionário rápido:
1. Qual aquele termo técnico para a sincronia entre um feixe de consciência e um som que você escuta?
2. Quais os dois principais tipos de distração?
3. Qual aspecto da atenção se correlaciona com a qualidade do desempenho dos atletas universitários?

Se você consegue responder a essas três perguntas de cabeça, esteve mantendo o foco enquanto lia — as respostas estavam algumas páginas antes (e podem ser lidas no fim deste capítulo). *

Se você não consegue se lembrar das respostas, talvez estivesse fora do ar, de vez em quando, enquanto lia. E você não é o único a passar por isso.
A mente de um leitor divaga tipicamente entre 20% e 40% do tempo em que lê um texto. A consequência disso para os estudantes, o que não surpreende, é que, quanto mais eles divagam, menos compreendem.

Mesmo quando nossas mentes não estão divagando, se o texto fica sem sentido — por exemplo, Precisamos ganhar circo para o dinheiro, em vez de Precisamos ganhar dinheiro para o circo — cerca de 30% dos leitores continuam lendo por um bom tempo (uma média de 17 palavras) antes de identificar a troca.

Quando lemos um livro, um blog ou qualquer narrativa, nossa mente constrói um modelo mental que nos permite compreender o que estamos lendo e faz uma ligação com o universo de modelos que já temos sobre o mesmo assunto. Essa rede de compreensão em expansão é a alma da aprendizagem. Quanto mais nós divagamos enquanto construímos essa rede, e quanto mais cedo ocorre o lapso depois que começamos a ler, mais buracos teremos.

Quando lemos um livro, nosso cérebro constrói uma rede de caminhos e incorpora aquele conjunto de ideias e experiências. Comparemos essa compreensão profunda com as interrupções e distrações típicas da sempre sedutora internet. O bombardeio de textos, vídeos, imagens e miscelânea de mensagens que recebemos online parece o inimigo da compreensão, mais completa, que vem do que Nicholas Carr chama de “leitura profunda”, a qual exige que o leitor se concentre constantemente e mergulhe num assunto, em vez de ficar pulando de um tema a outro, beliscando factoides desconexos.

Conforme a educação migra para formatos baseados na web, cresce o perigo de que a massa multimídia de distrações que chamamos de internet prejudique a aprendizagem. Lá atrás, nos anos 1950, o filósofo Martin Heidegger alertou contra uma crescente “maré de revolução tecnológica” que poderia “cativar, enfeitiçar, deslumbrar e divertir o homem de tal forma que o pensamento computacional pode algum dia se tornar… a única forma de pensar”.  Isso viria com a perda do “pensamento meditativo”, uma forma de reflexão que ele via como a essência da nossa humanidade.

Escuto o alerta de Heidegger nos termos do declínio de uma capacidade central à reflexão, a capacidade de manter a atenção numa narrativa em andamento. Pensar profundamente exige manter a mente focada. Quanto mais distraídos estamos, mais superficiais são as nossas reflexões. Da mesma forma, quanto mais curtas as nossas reflexões, mais triviais elas tendem a ser. Caso estivesse vivo hoje, Heidegger ficaria horrorizado se lhe pedissem para tuitar.

A ATENÇÃO ENCOLHEU?

Uma banda de suingue de Xangai toca música longe numa sala de convenções suíça lotada, com centenas de pessoas andando de um lado para outro. No meio do público superagitado absolutamente imóvel numa pequena mesa de bar redonda. Clay Shirky está mergulhado em seu laptop, digitando furiosamente.

Conheci Clay, especialista em mídias sociais vinculado à New York University, há alguns anos, mas raramente tenho a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente. Durante vários minutos fico parado a cerca de um metro de distância de Clay, à sua direita, o observando — posicionado em sua visão periférica, para o caso de ele ter alguma amplitude de atenção sobrando. Mas Clay não percebe nada até eu dizer seu nome. Então, espantado, levanta os olhos e começamos a conversar.

A atenção é uma capacidade limitada: a concentração arrebatada de Clay chega ao seu limite, até que ele a desvia para mim.

“Sete mais ou menos dois” blocos de informação são considerados o limite máximo do raio de atenção desde os anos 1950, quando George Miller propôs o que chamou de “número mágico” num dos artigos mais influentes da psicologia.

Mais recentemente, porém, alguns cientistas cognitivos argumentaram que quatro blocos são o limite máximo. Isso chamou a atenção limitada do público (por um breve instante, pelo menos), quando o novo meme espalhou que a capacidade mental havia encolhido de sete para quatro fragmentos de informação. “Encontrado o limite da mente: quatro fragmentos de informação”, proclamou um site de notícias científicas.

Houve quem interpretasse a suposta redução do que podemos guardar na mente como indicativo da distração da vida cotidiana no século XXI, censurando o encolhimento dessa capacidade mental fundamental. Mas os dados foram mal interpretados.

“A memória de trabalho não encolheu”, disse Justin Halberda, cientista cognitivo da Universidade Johns Hopkins. “Não é que a TV tenha tornado a nossa memória de trabalho menor” — que nos anos 1950 todos tivéssemos um limite máximo de sete mais ou menos dois fragmentos de informação e agora tenhamos apenas quatro. “A mente tenta aproveitar ao máximo seus recursos limitados”, explicou Halberda. “Assim, nós usamos estratégias que ajudam” — como combinar diferentes elementos, como 4, 1 e 5 num único bloco, o código de área 415. “Quando realizamos uma tarefa de memória, o resultado pode ser sete mais ou menos dois fragmentos. Mas isso resulta num limite fixo de quatro, mais três ou quatro mais o que as estratégias de memória acrescentam. Assim, tanto quatro quanto sete estão corretos, dependendo de como medimos.”

Então, há o que muita gente considera “dividir” a atenção em multitarefas, o que a ciência cognitiva nos mostra ser uma ficção também. Em vez de ter um balão de atenção elástico para usar em conjunto, temos um canal fixo e estreito para repartir. Em vez de dividi-la, nós, na realidade, trocamos rapidamente. Essa troca enfraquece a atenção do envolvimento completo e concentrado.

“O recurso mais precioso de um sistema de computador não é mais o processador, a memória, o disco ou a rede, mas a atenção humana”, aponta um grupo de pesquisa da Universidade Carnegie Mellon. A solução proposta pelo grupo para esse gargalo humano depende de minimizar as distrações: o Projeto Aura propõe nos livrarmos de pequenas falhas chatas de sistema, para não perdermos tempo com transtornos.

O objetivo de um sistema de computadores livre de problemas é louvável. Esta solução, no entanto, pode não nos levar tão longe: não precisamos de uma solução tecnológica, mas cognitiva. A fonte das distrações não na tecnologia que usamos, mas no ataque frontal à nossa capacidade de concentração, por parte de uma crescente maré de distrações.

O que me leva de volta a Clay Shirky e especialmente à sua pesquisa sobre mídias sociais. Embora nenhum de nós possa focar em tudo ao mesmo tempo, todos juntos criamos uma amplitude coletiva de atenção que podemos acessar individualmente quando necessário. Como a Wikipédia.

Como Shirky afirma em seu livro Lá vem todo mundo, a atenção pode ser vista como uma capacidade distribuída entre muitas pessoas, assim como a memória ou qualquer expertise cognitiva. Os temas da moda indexam como estamos alocando nossa atenção coletiva. Embora alguns argumentem que a aprendizagem e a memória facilitadas pela tecnologia nos emburrecem, também é possível afirmar que eles podem criar uma prótese mental que expanda o poder da atenção individual.

Nosso capital social — e o alcance da nossa atenção — se amplia conforme aumentamos o número de laços sociais através dos quais recebemos informações essenciais, como conhecimento tácito de “como as coisas funcionam por aqui”, seja numa organização ou numa nova vizinhança. Conhecidos casuais podem funcionar como pares de olhos e ouvidos extras no mundo, fontes-chave da orientação de que precisamos para funcionar em complexos ecossistemas sociais e de informação. A maioria de nós tem um punhado de laços fortes — amigos próximos e de confiança —, mas podemos ter centenas dos tais laços fracos (por exemplo, nossos “amigos” do Facebook). Laços fracos têm muito valor como multiplicadores da nossa capacidade de atenção, e como fonte de dicas para boas oportunidades de compras, possibilidades de empregos e parceiros amorosos.

Quando coordenamos o que vemos e o que sabemos, nossos esforços conjuntos multiplicam nossa riqueza cognitiva. Embora a qualquer momento nossa quota de memória de trabalho se mantenha pequena, o total de dados que podemos transferir por essa amplitude limitada se torna imenso. Essa inteligência coletiva, a soma total do que todos podem contribuir num grupo distribuído, promete foco máximo, a soma do que múltiplos olhos são capazes de perceber. Um centro de pesquisa sobre inteligência coletiva do MIT vê esta capacidade emergente como incitada pelo compartilhamento da atenção na Internet. O exemplo clássico: milhões de sites lançam seus destaques junto a pequenos nichos — e uma busca na web seleciona e direciona nosso foco de modo que podemos colher todo aquele trabalho cognitivo com eficiência.

A questão básica do grupo do MIT: “Como podemos conectar pessoas e computadores para agirmos coletivamente com mais inteligência do que qualquer pessoa ou grupo isolado?”

Ou, como dizem os japoneses: “Todos somos mais inteligentes do que qualquer um de nós.”

VOCÊ AMA O QUE FAZ?

A grande questão: quando acorda de manhã, você fica feliz em ir trabalhar, estudar ou fazer o que quer que ocupe o seu dia?

Uma pesquisa conduzida por Howard Gardner

Uma pesquisa conduzida por Howard Gardner, de Harvard, William Damon, de Stanford, e Mihaly Csikszentmihalyi, de Claremont, se concentrou no que eles chamam de “bom trabalho”, uma mistura poderosa daquilo em que as pessoas são excelentes, do que as engaja e da sua ética — aquilo em que acreditam ter importância. Essas são vocações altamente absorventes: as pessoas amam o que fazem. Absorção total no que fazemos é bom, e o prazer é o marcador emocional para a entrega.

As pessoas raramente se entregam na vida cotidiana.19 Ao fazer amostragens aleatórias dos humores das pessoas, descobrimos que, na maior parte do tempo, elas estão ou estressadas ou entediadas, apenas com períodos ocasionais de entrega. Somente cerca de 20% das pessoas têm momentos de entrega pelo menos uma vez por dia. Aproximadamente 15% das pessoas jamais entram em estado de entrega durante um dia típico.

Um segredo para se ter mais entrega na vida é alinhar o que fazemos com o que gostamos, como ocorre com aqueles felizardos cujos empregos lhes dão muito prazer. Pessoas de sucesso em qualquer área — os sortudos, de qualquer maneira — acertaram nessa combinação.

Além de uma mudança de carreira, há vários caminhos para a entrega. Um desses se abre quando encontramos uma atividade que desafia nossa capacidade ao máximo — uma demanda “apenas administrável” pelas nossas competências. Outra porta de entrada se abre através daquilo por que somos apaixonados. A motivação nos faz fluir. De qualquer forma, o caminho final em comum é o foco total: são ambos caminhos para ampliar a atenção. Não importa como se chega lá, um foco equilibrado dá a partida na entrega. Esse estado ideal do cérebro para realizar bem um trabalho é marcado pela harmonia neural — uma interconexão rica de diversas áreas do cérebro.

Nesse estado, os circuitos necessários para a tarefa em questão estão altamente ativos enquanto os irrelevantes se mantêm inativos, com o cérebro precisamente direcionado às exigências do momento. Quando nossos cérebros estão nessa zona ideal, nos entregamos, desempenhando da melhor maneira possível qualquer que seja nosso objetivo.

Pesquisas em locais de trabalho, no entanto, demonstram que um grande número de pessoas se encontra num estado cerebral muito diferente: sonham acordadas, desperdiçam horas navegando na Internet ou no YouTube e fazem o mínimo necessário. Sua atenção se dispersa. Tamanhas desmotivação e indiferença ocorrem em demasia, principalmente entre trabalhos repetitivos e pouco exigentes. Para aproximar o trabalhador desmotivado do campo do foco, é preciso elevar sua motivação e seu entusiasmo, evocando um senso de propósito e acrescentando uma dose de pressão.

Por outro lado, outro grupo grande está preso no estado que os neurobiólogos chamam de “exaustão”, em que o estresse constante sobrecarrega o sistema nervoso com montes de cortisol e adrenalina. A atenção dessas pessoas se fixa nas preocupações, não no trabalho. Essa exaustão emocional pode levar ao esgotamento.

O foco total nos dá uma entrada para a entrega. Mas quando optamos por nos focar em uma coisa e ignorar o resto, revelamos uma tensão constante — normalmente invisível — entre uma grande divisão neural, em que a parte de cima do cérebro briga com a parte de baixo.

* Respostas: 1. bloqueio de fase; 2. sensoriais e emocionais; 3. a capacidade dos atletas de se concentrar e ignorar distrações

ATENÇÃO SUPERIOR E ATENÇÃO INFERIOR

“Voltei minha atenção ao estudo de algumas questões aritméticas, aparentemente sem muito sucesso”, escreveu Henri Poincaré, matemático Francês do século XIX. Aborrecido com meu fracasso, decidi passar alguns dias à beira-mar.”

Numa manhã, durante uma caminhada num penhasco acima do mar, ele de repente teve o insight “de que as transformações aritméticas de formas ternárias quadráticas indeterminadas eram idênticas àquelas da geometria não euclidiana”.

As especificidades dessa prova não são relevantes aqui (felizmente: eu não conseguiria sequer começar a compreender a matemática). O que é intrigante a respeito dessa iluminação é como Poincaré chegou a ela: com “brevidade, rapidez e certeza imediata”. Ele foi tomado de surpresa.

A história da criatividade é repleta de casos semelhantes. Karl Gauss, um matemático do século XVIII, empenhou-se para provar um teorema durante quatro anos, sem solução. No entanto, um dia, a resposta veio a ele “tão rápido quanto um clarão de luz”. Não soube descrever o fio de pensamento que ligava os anos de trabalho duro àquele lampejo.

Por que a surpresa? Nosso cérebro tem dois sistemas mentais semi-independentes, amplamente separados. Um tem grande capacidade computacional e trabalha constantemente, funcionando silenciosamente para resolver nossos problemas, nos surpreendendo com uma solução repentina para raciocínios complexos. Como trabalha além do horizonte da percepção consciente, não enxergamos seu funcionamento. Este sistema nos apresenta o fruto de seus vastos trabalhos como se surgissem do nada, numa profusão de formas, seja guiando a sintaxe de uma frase ou construindo provas matemáticas extremamente complexas.

Esta atenção do fundo da mente costuma se tornar o centro do foco quando acontece o inesperado. Você está falando ao celular enquanto dirige (a parte da direção está no fundo da mente) e de repente uma buzina faz você se dar conta de que o farol ficou verde.

Muito dessa estrutura neural fica na parte inferior do nosso cérebro, no circuito subcortical, embora os frutos de seus esforços venham à consciência ao sair lá de baixo e avisar nosso neocórtex, ou seja, as camadas mais altas do cérebro. Através de suas reflexões, Poincaré e Gauss colheram progressos das camadas mais baixas do cérebro.

“De baixo para cima”, ou “ascendente”, se tornou a expressão da ciência cognitiva para tais funcionamentos desta máquina neural da parte inferior do cérebro. 2 Da mesma forma, “de cima para baixo”, ou “descendente”, se refere à atividade mental, principalmente no neocórtex, que pode monitorar e impor seus objetivos ao funcionamento subcortical. É como se houvesse duas mentes trabalhando.

A mente de baixo para cima é:
• mais veloz em tempo cerebral, que opera em milissegundos; • involuntária e automática: está sempre ligada;
• intuitiva, operando através de redes de associação;
• impulsiva, movida pelas emoções;
• executora de nossas rotinas habituais e guia de nossas ações;
• gestora de nossos modelos mentais do mundo.

Em contrapartida, a mente de cima para baixo é:
• mais lenta;
• voluntária;
• esforçada;
• a sede do autocontrole, que pode (às vezes) suplantar rotinas automáticas e anular impulsos com motivações emocionais;
• capaz de aprender novos modelos, fazer novos planos e assumir o controle do nosso repertório automático — até certo ponto.

A atenção voluntária, a força de vontade e a escolha intencional envolvem operações mentais de cima para baixo. A atenção reflexiva, o impulso e os hábitos rotineiros envolvem operações mentais de baixo para cima (assim como a atenção capturada por uma roupa estilosa ou um anúncio criativo). Quando decidimos entrar em sintonia com a beleza de um pôr do sol, nos concentrar no que estamos lendo ou conversar com alguém, entramos em uma modalidade de funcionamento descendente. O olhar da nossa mente executa uma dança contínua entre a atenção capturada por estímulos e o foco voluntariamente direcionado.

O sistema ascendente é multitarefa, acompanha uma profusão de informações em paralelo, incluindo detalhes do que nos cerca e que ainda não entraram completamente em foco. Ele analisa o que está em nosso campo de percepção antes de nos deixar saber o que selecionou como relevante para nós. Nossa mente descendente leva mais tempo para deliberar sobre o que lhe é apresentado, avaliando uma coisa de cada vez e aplicando análises mais ponderadas.

Através do que equivale a uma ilusão de ótica da mente, aceitamos o que está na nossa consciência para igualar o total das operações da mente. Mas, na realidade, a maioria absoluta das operações mentais ocorre nos bastidores da mente, em meio ao funcionamento dos sistemas ascendente.

Muito (alguns dizem que tudo) do que a mente descendente acredita ter escolhido focalizar, pensar e fazer são na realidade planos ditados pelos circuitos ascendentes. Se isso fosse um filme, o psicólogo Daniel Kahneman observa ironicamente, a mente descendente seria uma “personagem coadjuvante que se vê como a heroína”. 3

Voltando milhões de anos na evolução, os velozes e reflexivos circuitos ascendentes favorecem o pensamento em curto prazo, o impulso e as decisões rápidas. Os circuitos descendentes, na frente e na parte de cima do cérebro, são uma adição posterior, com maturação plena ocorrida há meras centenas de milhares de anos.

As conexões descendentes acrescentam talentos como autoconsciência, reflexão, deliberação e planejamento ao repertório das nossas mentes. Esse foco intencional oferece à mente uma alavanca para administrar nosso cérebro. Enquanto desviamos nossa atenção de uma tarefa, plano, sensação etc. a outras coisas, o circuito cerebral relacionado se acende. Traz à mente a lembrança feliz de uma dança, e os neurônios da alegria e do movimento ganham vida. Com a recordação do funeral de alguém amado, o circuito da tristeza é ativado. O ensaio mental de uma tacada de golfe faz com que os axônios e os dendritos que orquestram esses movimentos se conectem com um pouco mais de força.

O cérebro humano está entre os designs bons o bastante, mas não perfeitos, da evolução. Os mais antigos sistemas ascendentes do cérebro aparentemente trabalharam bem durante a maior parte da pré-história humana — mas seu design provoca alguns problemas hoje. Em quase tudo na vida, o sistema mais antigo dá conta do recado, normalmente para nossa vantagem, mas às vezes em nosso detrimento: gastos em excesso, vícios e direção irresponsável em alta velocidade são sinais desse sistema fora de compasso.

As exigências de sobrevivência do começo da evolução equiparam nossos cérebros com programas ascendentes destinados a procriação e criação de filhos, para o que é prazeroso e o que é desagradável, para correr do perigo ou na direção do alimento e coisas do gênero. Avancemos para o mundo bastante diferente de hoje: frequentemente precisamos navegar a vida de cima para baixo apesar da constante contracorrente de caprichos e impulsos de baixo para cima.

Um fator surpreendente faz constantemente a balança pender para o sistema ascendente: o cérebro economiza energia. Esforços cognitivos como aprender a usar sua última atualização tecnológica demandam atenção ativa, a um custo de energia. Mas quanto mais passamos por uma rotina inicialmente desconhecida, mais ela se transforma em hábitos arraigados e se deixa dominar pelo circuito ascendente, especialmente as redes neurais nos gânglios da base, uma massa do tamanho de uma bola de golfe aninhada na parte de baixo do cérebro, logo acima da medula espinhal. Quanto mais praticamos uma rotina, mais um gânglio da base a assume de outras partes do cérebro.

Os sistemas ascendente e descendente distribuem tarefas mentais entre eles para que consigamos fazer o mínimo de esforço e obtenhamos ótimos resultados. Conforme a familiaridade torna uma rotina mais fácil, ela passa de descendente a ascendente. Da forma como vivemos essa transferência neural, cada vez precisamos prestar menos atenção — e, afinal, nenhuma atenção —, até que ela se torna automática.

O auge do automatismo pode ser visto quando a expertise gera um bom resultado de atenção sem esforço para uma alta demanda, seja numa partida de xadrez profissional, numa corrida da Nascar ou na elaboração de um quadro a óleo. Se não praticamos o suficiente, tudo isso exigirá foco deliberado. Mas se dominamos as habilidades necessárias a um nível que se equipara à demanda, elas não exigirão qualquer esforço cognitivo extra — liberando nossa atenção para os extras encontrados apenas por quem está nos níveis mais altos.

Como atestam campeões mundiais, nos níveis mais altos, quando seus oponentes praticaram tantas milhares de vezes quanto você, qualquer competição se torna um jogo mental: o seu estado mental determina o quanto você conseguirá focar e quão bem poderá se sair. Quanto mais puder relaxar e confiar nos movimentos ascendente, mais liberada ficará a mente para ser ágil.

Consideremos, por exemplo, os grandes quarterbacks de futebol americano que têm o que os analistas esportivos chamam de “grande capacidade de enxergar o campo”: eles conseguem ler as formações defensivas dos times adversários para perceber suas intenções de movimento e, quando a jogada começa, se ajustam instantaneamente a esses movimentos, ganhando um ou dois segundos valiosos para escolher um jogador livre e fazer um passe. Tal “visão” exige enorme prática, para que o que inicialmente exige muita atenção — desviar daquele jogador — ocorra automaticamente.

De uma perspectiva de computação mental, encontrar um jogador a quem dar um passe sob a pressão de vários corpos de mais de 100 quilos correndo na sua direção de diferentes ângulos não é pouca coisa: o quarterback precisa ter sempre em mente as linhas de passe de vários receptadores em potencial ao mesmo tempo que processa e reage aos movimentos de todos os 11 jogadores oponentes — um desafio que é mais bem administrado por circuitos ascendentes quando bem ensaiados (e que seria esmagador, caso ele tivesse de pensar conscientemente cada movimento).

RECEITA PARA UM FRACASSO

Lolo Jones estava ganhando a corrida de obstáculos de 100 metros na categoria feminina, rumo a uma medalha de ouro nas Olimpíadas de 2008 em Pequim. Na liderança, estava vencendo os obstáculos sem esforço- até que alguma coisa deu errado.

Inicialmente, foi muito sutil: ela teve a sensação de que os obstáculos estavam vindo em sua direção muito rapidamente. Com isso, Jones pensou: “Cuidado para não relaxar na sua técnica… Tenha certeza de que suas pernas estão afiadíssimas.”

Pensando assim, ela se esforçou demais, ficando um pouco mais tensa do que o necessário — e atingiu o nono dos dez obstáculos. Jones terminou em sétimo lugar e caiu na pista aos prantos. 5 Quando estava prestes a tentar novamente nas Olimpíadas de 2012 em Londres (onde acabou terminando a corrida dos 100 metros em quarto lugar), Jones conseguia se lembrar daquele momento de derrota com clareza absoluta. E se você perguntasse aos neurocientistas, conseguiriam diagnosticar o erro com igual certeza: quando ela começou a pensar nos detalhes da técnica em vez de simplesmente deixar o trabalho para os circuitos motores que haviam praticado aqueles movimentos até dominá-los, Jones deixou de confiar em seu sistema ascendente e assim abriu a porta para que o sistema descendente começasse a interferir.

Estudos do cérebro demonstram que um atleta campeão começar a pensar em técnica durante o desempenho é uma receita certa para o fracasso. Quando craques de futebol correm com uma bola contornando cones de trânsito — e precisam pensar qual lado do pé está controlando a bola —, cometem mais erros. 6 O mesmo acontece quando jogadores de beisebol tentam identificar se o taco está se movendo para cima ou para baixo durante a tacada de uma bola.

O córtex motor, que num atleta experiente tem esses movimentos profundamente gravados em seus circuitos graças a milhares de horas de treino, funciona melhor quando funciona sozinho. Quando o córtex pré-frontal é ativado e começamos a pensar em como estamos nos saindo — ou, pior, em como fazer o que estamos fazendo —, o cérebro entrega parte do controle a circuitos que sabem pensar e se preocupar, mas não sabem como realizar o movimento em si. Seja nos 100 metros, no futebol ou no beisebol, esta é uma receita universal para tropeçar.

É por isso que, como me diz Rick Aberman, que gerencia altas performances do time de beisebol Minnesota Twins: “O treinador rever jogadas de um jogo anterior focando apenas no que não deve ser feito é uma receita para os jogadores se saírem mal.”

Isso não ocorre apenas nos esportes. Fazer amor é algo que vem à mente como outra atividade em que analisar demais atrapalha. Um artigo de jornal sobre “efeitos irônicos de tentar relaxar sob estresse” sugere ainda outro exemplo: o esforço intencional para relaxar.

Relaxar e fazer amor funcionam melhor quando simplesmente deixamos as coisas acontecerem — não tentamos forçá-las. O sistema nervoso parassimpático, que entra em campo durante essas atividades, normalmente age independentemente do executivo do nosso cérebro, que pensa nelas.

Edgar Allan Poe apelidou a infeliz tendência mental de trazer à tona algum tema sensível que se decidiu não mencionar como “o demônio da perversidade”. Um artigo adequadamente intitulado “Como pensar, dizer ou fazer exatamente a pior coisa para qualquer ocasião”, do psicólogo de Harvard Daniel Wegner, explica o mecanismo cognitivo que anima esse demônio.

Wegner descobriu que erros aumentam de acordo com o grau em que estamos distraídos, estressados ou de alguma outra forma sobrecarregados mentalmente. Nessas circunstâncias, um sistema de controle cognitivo que normalmente monitora erros que possamos cometer (como não falar sobre aquele assunto) pode inadvertidamente agir como um apogeu mental, aumentando a probabilidade exatamente desse erro (como falar sobre aquele assunto).

Quando Wegner fez com que voluntários experimentais tentassem não pensar numa palavra em particular, e então os pressionava para responder rapidamente a uma tarefa de associação de palavras, eles frequentemente respondiam justamente com a palavra proibida.

Sobrecarregar a atenção entorpece o controle mental. É nos momentos em que nos sentimos mais estressados que nos esquecemos de nomes de pessoas que conhecemos bem, sem falar em seus aniversários, aniversários de casamento e outras informações socialmente cruciais.

Mais um exemplo: obesidade. Pesquisadores descobriram que a prevalência da obesidade nos Estados Unidos ao longo dos últimos trinta anos acompanha a explosão dos computadores e dos equipamentos tecnológicos na vida das pessoas — e suspeitam que não seja uma relação acidental. A vida imersa em distrações digitais cria uma quase constante sobrecarga cognitiva. E essa sobrecarga mina o autocontrole.

Esqueça aquela determinação em fazer dieta. Perdidos no mundo digital, vamos irracionalmente em busca das batatas Pringles.

O ERRO DESCENDENTE

Uma pesquisa feita entre psicólogos perguntava se pesquisa feita entre psicólogos perguntava se poderia haver alguma coisa incômoda que eles não compreendiam sobre si mesmos.

Um disse que por duas décadas ele havia estudado o quanto o clima ruim faz com que toda a vida de alguém pareça triste, a menos que a pessoa tome consciência do quanto o clima ruim piora seu humor, mas que mesmo que compreendesse tudo isso, céus cinzentos ainda o faziam se sentir mal.

Outro se mostrou intrigado com sua compulsão por escrever artigos que demonstram como algumas pesquisas são muito mal orientadas e como ele continua fazendo isso mesmo que nenhum pesquisador relevante tenha prestado muita atenção.
E um terceiro disse que, embora tenha estudado a “tendência de percepção exagerada masculina” — a interpretação equivocada da cordialidade de uma mulher como interesse romântico —, ele ainda sucumbe a essa tendência.

O circuito ascendente aprende vorazmente — e em silêncio —, absorvendo lições continuamente ao longo do dia. Esse aprendizado implícito nunca precisa se tornar consciente, embora funcione como um leme na vida, para o bem e para o mal.

O sistema automático funciona bem na maior parte do tempo: sabemos o que está acontecendo e o que fazer, e somos capazes de atravessar as exigências do dia bem o bastante enquanto pensamos em outras coisas. Mas este sistema também tem suas fraquezas: nossas emoções e motivações criam distorções e desvios em nossa atenção que normalmente não percebemos, e não percebemos que não percebemos.

A ansiedade social, por exemplo. Em geral, pessoas ansiosas se fixam em qualquer coisa que seja vagamente ameaçadora. As pessoas com ansiedade social se voltam compulsivamente para o menor sinal de rejeição, como uma fugaz expressão de desagrado no rosto de alguém — um reflexo da suposição habitual de que elas são socialmente fracassadas. A maior parte dessas transações emocionais ocorre fora da consciência, levando as pessoas a evitar situações em que possam ficar ansiosas.

Um método engenhoso para remediar essa inclinação de baixo para cima é tão sutil que as pessoas não têm ideia de que seus padrões de atenção estão sendo reprogramados (da mesma forma como não faziam ideia de que aquela primeira programação estava sendo feita quando a adquiriram). Chamada modificação cognitiva do comportamento, esta terapia invisível faz pessoas que sofrem de grave ansiedade social olharem para fotos de uma plateia — e são orientadas a apertar um botão o mais rapidamente possível quando surgem flashes de luz.

Os flashes nunca aparecem nas áreas ameaçadoras das fotos, como expressões carrancudas. A intervenção se mantém em segredo, sem entrar na consciência. Porém, ao longo de várias sessões, o circuito de baixo para cima aprende a dirigir a atenção a sinais não ameaçadores. Embora as pessoas nem desconfiem da sutil reprogramação de sua atenção, o nível de ansiedade delas em situações sociais diminui.

Este é um uso benigno desse circuito. Há também a propaganda. As tradicionais estratégias para obter atenção em um mercado saturado — o que há de novo, o que há de melhor, o que há de surpreendente — ainda funcionam. Porém, uma míniindústria de estudos do cérebro a serviço do marketing gerou estratégias baseadas na manipulação da nossa mente inconsciente. Um desses estudos descobriu, por exemplo, que se são mostrados artigos de luxo às pessoas ou se elas apenas são levadas a pensar em itens de luxo, se tornam mais autocentradas em suas decisões.

Uma das áreas mais ativas da pesquisa sobre escolhas inconscientes está centrada no que nos faz ir em busca de algum produto quando vamos às compras. Os marqueteiros querem saber como mobilizar nosso cérebro de baixo para cima.

Uma pesquisa de marketing, por exemplo, descobriu que quando as pessoas são expostas a alguma bebida ao lado de rostos sorridentes que vão passando numa tela rápido demais para a imagem ser registrada conscientemente — embora seja percebida pelos sistemas ascendentes —, elas bebem mais do que quando essas imagens fugazes são de rostos irritados.

Uma revisão dessa pesquisa concluiu que somos “massivamente inconscientes” dessas forças sutis de marketing, mesmo quando elas definem a forma como compramos. A percepção de baixo para cima nos transforma em trouxas vulneráveis a influências externas por meio de estímulos subconscientes.

Atualmente, a vida parece regida pelo impulso num grau preocupante. Uma inundação de anúncios publicitários nos estimula, de baixo para cima, a desejarmos uma infinidade de bens e a gastarmos hoje sem pensar em como pagaremos amanhã. Para muitos, o reino do impulso vai além dos gastos e empréstimos excessivos, chega ao ponto do comer excessivo ou de outros hábitos característicos de adições — como entupir-se de doces ou passar horas intermináveis olhando fixamente para algum tipo de tela digital.

SEQUESTROS NEURAIS

Ao e entrar no escritório de alguém, qual a primeira coisa que você nota? Eis uma pista do que está guiando o seu foco de baixo para cima naquele momento. Se estiver com algum objetivo financeiro, poderá imediatamente perceber um gráfico de receitas na tela do computador. Se tiver aracnofobia, irá se fixar naquela teia empoeirada no canto da janela.

São escolhas subconscientes da atenção. Tal captura da atenção ocorre quando o circuito da amígdala, a sentinela do cérebro para significados emocionais, encontra algo que considera importante. Aranhas, expressões irritadas ou bebês fofos dão uma ideia das configurações do cérebro para tais interesses instintivos. 15 Esta estrutura do sistema ascendente, situada no mesencéfalo, reage muito mais rapidamente em tempo neural do que a região pré-frontal descendente, enviando sinais para cima a fim de ativar caminhos corticais mais altos, que alertam os centros executivos (relativamente) lentos para despertarem e prestarem atenção.

Os mecanismos de atenção do nosso cérebro evoluíram ao longo de centenas de milhares de anos para sobreviverem com unhas e dentes numa selva onde ameaças se aproximavam de nossos ancestrais dentro de um conjunto de fatores e de um alcance visual específicos — algum ponto entre o bote de uma cobra e a velocidade de um tigre saltando. Os nossos ancestrais cujas amígdalas eram rápidas o bastante para ajudá-los a se esquivar daquela cobra e fugir daquele tigre passaram seu design neural para nós.

Cobras e aranhas, dois animais que o cérebro humano parece preparado para perceber com susto, chamam a atenção mesmo quando suas imagens são exibidas tão rapidamente que não temos noção consciente de tê-los visto. Os circuitos ascendentes os percebem mais rapidamente do que objetos neutros e nos mandam um alarme (se exibirmos essas imagens a um especialista em cobras ou aranhas, ele também terá sua atenção capturada — mas sem sinal de susto).

O cérebro considera impossível ignorar expressões emocionais, principalmente as de irritação. Expressões irritadas têm supersaliência: o cérebro ascendente monitora o que está acontecendo longe dos holofotes da atenção consciente, perscrutando continuamente em busca de ameaças. Examine uma multidão e alguém com a expressão irritada irá se destacar. A parte de baixo do cérebro identificará inclusive um personagem de desenho animado com sobrancelhas em forma de V (como os meninos do South Park) mais rapidamente do que um rosto feliz.

Somos programados para prestar atenção reflexiva a “estímulos supernormais”, quer seja por segurança, nutrição ou sexo — da mesma forma que um gato não consegue deixar de caçar um rato falso preso a um fio. No mundo atual, anúncios publicitários que agem sobre essas mesmas inclinações pré-programadas também nos cutucam no sistema ascendente, conquistando nossa atenção reflexiva. Basta vincular sexo ou prestígio a um produto e é possível ativar esses mesmos circuitos para nos influenciar a comprar por motivos que sequer percebemos.

Nossas propensões particulares nos tornam ainda mais vulneráveis. Alcoólatras ficam fascinados por anúncios de vodca; depravados, por pessoas sensuais num comercial turístico. Isso é atenção ascendente pré-selecionada. Essa busca por foco de baixo dos nossos circuitos neurais é automática, uma escolha involuntária. Somos mais suscetíveis a emoções guiarem nosso foco dessa maneira quando nossas mentes estão vagando, quando estamos distraídos ou quando estamos sobrecarregados de informação — ou todas as três alternativas.

Então nossas emoções saem do controle. Ontem, eu estava escrevendo exatamente este texto, sentado diante do computador, quando do nada senti uma crise de dor incapacitante na lombar. Talvez não tenha sido do nada: vinha se formando silenciosamente desde a manhã. Mas, sentado à mesa de trabalho, a dor de repente tomou conta do meu corpo, indo da parte baixa da espinha até os centros de dor do meu cérebro.

Quando tentei me levantar, a pontada de dor foi tão forte que me encolhi de novo na cadeira. E, pior, minha mente começou a pensar em tudo de pior que poderia acontecer: “Isso vai me deixar aleijado para o resto da vida”, “Vou precisar tomar injeções de esteroides regularmente”… e essa linha de pensamento levou minha mente em pânico a se lembrar de que um fungo numa indústria farmacêutica mal administrada havia levado à morte pacientes por meningite depois de tomarem justamente essas injeções.

Acontece que eu havia acabado de apagar um bloco de texto sobre um ponto relacionado, que pretendia mover para mais ou menos esta parte do livro. Mas com a atenção voltada à dor e à preocupação, me esqueci completamente do que estava fazendo — e o bloco de texto desapareceu num buraco negro. Quando somos dominados por fortes emoções, elas guiam nosso foco, fixando nossa atenção no que é mais perturbador e fazendo com que nos esqueçamos do resto.

Sequestros emocionais como este são disparados pela amígdala, o radar de ameaças do cérebro, que está constantemente rastreando o entorno em busca de perigos. Quando esses circuitos encontram uma ameaça (ou o que poderia ser uma ameaça — pois frequentemente se enganam), uma ampla via de circuitos neuronais subindo para as áreas pré-frontais envia um bombardeio de sinais que faz com que a parte mais baixa do cérebro guie a parte mais alta: nossa atenção se estreita, colada ao que está nos perturbando; nossa memória se reembaralha, tornando mais fácil recordar qualquer coisa que seja relevante à ameaça em questão. E nosso corpo entra em marcha acelerada enquanto uma enxurrada de hormônios do estresse prepara nossos membros para lutar ou correr. Nós nos fixamos naquilo que é perturbador e esquecemos o resto.

Quanto mais forte a emoção, maior a nossa fixação. Os sequestros emocionais são a supercola da atenção. Mas a questão é: por quanto tempo nosso foco se mantém capturado? Acontece que isso depende do poder da região pré-frontal esquerda para acalmar a amígdala excitada.

Essa ampla via neuronal da amígdala à região pré-frontal tem ramificações para a esquerda e para a direita do córtex pré-frontal. Quando somos emocionalmente sequestrados, os circuitos da amígdala capturam o lado direito e assumem o comando. Mas o lado esquerdo pode enviar sinais para baixo a fim de suavizar o sequestro.

A resiliência emocional se resume à rapidez com que conseguimos nos recuperar de problemas nesses casos. Pessoas altamente resilientes — que reagem imediatamente — podem ter até trinta vezes mais ativações da região pré-frontal esquerda do que as que são menos resilientes. A boa notícia é que, como veremos na Parte Cinco, podemos aumentar a força do circuito pré-frontal esquerdo, capaz de tranquilizar a amígdala.

A VIDA NO AUTOMÁTICO

Meu amigo e eu estamos concentrados numa conversa num restaurante lotado, já no final do almoço. Ele está imerso na própria narrativa, falando de um momento particularmente intenso que viveu recentemente.
Ele está tão focado em me contar sua história que ainda não terminou de comer. Meu prato já está vazio há um tempo.

A essa altura, a garçonete vem até nossa mesa e lhe pergunta: “O senhor está satisfeito com o almoço?”

Ele mal percebe a presença dela e resmunga um indiferente “Não, ainda não”, e continua a contar sua história sem dar uma pausa sequer.

É claro que a resposta do meu amigo não foi para o que a garçonete realmente perguntou, mas para o que garçons normalmente perguntam a essa altura de uma refeição: “O senhor já terminou?”

Esse pequeno engano tipifica o ponto negativo de uma vida conduzida pelos sistemas ascendentes, no automático: deixamos passar o instante da forma como ele realmente nos chega, apenas reagindo a partir de um modelo fixo de deduções sobre o que está acontecendo. E perdemos a graça do momento:

Garçom: “O senhor está satisfeito com o almoço?”

Cliente: “Não, ainda não.” Na época em que em muitos escritórios era comum que se formasse uma longa fila para usar a copiadora, a psicóloga de Harvard Ellen Langer pediu que algumas pessoas fossem até o começo da fila e dissessem simplesmente: “Preciso fazer algumas cópias.”

É claro que todo mundo na fila estava lá para fazer cópias também. No entanto, com bastante frequência, quem estava no primeiro lugar da fila deixava essa pessoa passar na frente. Isso, diz Langer, exemplifica a desatenção, a atenção no automático. Uma atenção ativa, ao contrário, poderia levar quem estava no primeiro lugar da fila a questionar se aquela pessoa realmente tinha alguma necessidade privilegiada de urgência por suas cópias.

O envolvimento ativo da atenção significa uma atividade descendente, um antídoto para o risco de se atravessar o dia com um automatismo de zumbi. Podemos reagir a comerciais, ficar alertas ao que está acontecendo ao nosso redor, questionar rotinas automáticas ou melhorá-las. Essa atenção focada e frequentemente orientada a resultados inibe hábitos descuidados. É um foco ativo.

Portanto, embora as emoções possam desviar nossa atenção, com esforço ativo também conseguimos administrar as emoções descendentes. Assim, as regiões pré- frontais assumem o controle da amígdala, diminuindo sua potência. Um rosto irritado, ou mesmo aquele bebê fofo, pode não conseguir capturar nossa atenção quando os circuitos do controle descendente assumem as escolhas do cérebro sobre o que levar em consideração e o que ignorar.

O VALOR DE UMA MENTE A DERIVA

Vamos recuar um pouco e considerar novamente o pensamento. No que escrevi até agora, há um viés implícito: aquela atenção focada e orientada a resultados tem mais valor do que a percepção aberta e espontânea. Mas a conclusão simples de que a atenção precisa estar a serviço da solução de problemas ou do alcance de objetivos subestima a fertilidade da tendência de a mente divagar sempre que é deixada a sua própria sorte.

Todo tipo de atenção tem sua utilidade. O simples fato de que cerca de metade dos nossos pensamentos são devaneios espontâneos sugere que esta pode ter sido uma vantagem evolutiva para uma mente que é capaz de considerar o imaginário. Somos capazes de modificar nossas próprias ideias sobre uma “mente divagando” ao pensarmos que, em vez de estarmos divagando para longe do que é importante, podemos perfeitamente estar divagando na direção de alguma coisa de valor.

Pesquisas do cérebro sobre a divagação da mente enfrentam um paradoxo singular: é impossível instruir alguém a ter um pensamento espontâneo — ou seja, fazer sua mente divagar.  Se quisermos capturar pensamentos divagando ao natural, é preciso apanhá-los onde eles aparecem. Eis uma estratégia de pesquisa preferencial: enquanto as pessoas estão tendo os cérebros examinados, pergunte em momentos aleatórios o que elas estão sentindo. Isso produz uma mistura desordenada dos conteúdos da mente, incluindo uma boa porção de divagação.

O impulso interno para se afastar do foco intencional é tão forte que cientistas cognitivos veem a mente divagadora como o modo-padrão do cérebro — aonde ele vai quando não está trabalhando em alguma tarefa mental. O circuito dessa “rede-padrão”, como descobriu uma série de estudos de neuroimagem, é centrado na região medial, ou intermediária, do córtex pré-frontal.

Exames cerebrais mais recentes revelaram uma surpresa: durante a divagação da mente, duas grandes regiões do cérebro se ativam, não apenas a faixa medial que tem sido associada com a mente à deriva. 4 A outra região — o sistema executivo do córtex pré-frontal — era considerada fundamental para nos manter focados numa tarefa. Ainda assim, os exames parecem mostrar ambas as regiões ativadas enquanto a mente divaga.

Isso é um pouco intrigante. Afinal, a divagação da mente, por natureza, tira o foco do que está sendo feito e prejudica nosso desempenho, especialmente em questões cognitivamente exigentes. Os pesquisadores resolveram esse enigma de modo experimental, ao sugerir que a divagação da mente prejudica o desempenho ao tomar o sistema executivo emprestado para outros assuntos.

Isso nos leva de volta à pergunta: para onde a mente deriva? Com bastante frequência, para as nossas preocupações pessoais e nossas questões não resolvidas — coisas em que precisamos trabalhar. Embora a divagação da mente possa prejudicar nosso foco imediato em alguma tarefa específica, ela funciona a serviço de resolver problemas importantes para as nossas vidas.

Uma mente à deriva permite que nossa essência criativa flua. Enquanto nossas mentes divagam, nos tornamos melhores em qualquer coisa que dependa de um lampejo de insight, de jogos de palavras criativos a invenções e ideias originais. Na verdade, pessoas que realizam muitas tarefas mentais que demandam controle cognitivo e intensa memória de trabalho — como resolver equações matemáticas complexas — podem sentir dificuldade para terem insights criativos se tiverem problemas para desligar o foco completamente concentrado.

Entre as outras funções positivas da divagação da mente, estão a geração de cenários para o futuro, a autorreflexão, a capacidade de se relacionar em um mundo social complexo, a incubação de ideias criativas, a flexibilidade do foco, a ponderação do que se está aprendendo, a organização das lembranças ou a mera meditação sobre a vida — e também a possibilidade de dar aos nossos circuitos de foco mais intensivo uma pausa revigorante.

Uma reflexão momentânea me leva a acrescentar mais duas funções: a de me lembrar de coisas que preciso fazer para que elas não se percam na desordem da mente e a de me entreter. Tenho certeza de que você pode sugerir algumas outras utilidades se deixar sua mente vagar um pouco.

A ARQUITETURA DA SERENDIPIDADE

Um conto de fadas persa conta a história dos Três Príncipes de Serendip, que estavam sempre fazendo descobertas, por obra do acaso e sagacidade, de coisas pelas quais não estavam procurando. A criatividade ao natural também funciona dessa maneira.

“Novas ideias não irão surgir se você não se der essa permissão”, me diz o CEO da Salesforce, Marc Benioff. “Quando eu era vice-presidente na Oracle, viajei um mês para o Havaí apenas para relaxar. Ao fazer isso, abri minha carreira para novas ideias, perspectivas e direções.”

Naquele espaço ao ar livre, Benioff se deu conta dos usos potenciais da computação em nuvem que o fizeram sair da Oracle, começar a Salesforce numa sala e preconizar o que na época ainda era um conceito radical. A Salesforce foi pioneira no que agora é uma indústria de muitos bilhões de dólares.

Em contrapartida, um cientista determinado demais a confirmar sua hipótese corre o risco de ignorar descobertas que não estão de acordo com suas expectativas — dispensando-as como ruído ou erro em vez de tratá-las como novas descobertas —, e assim deixa passar dados que poderiam se tornar teorias mais frutíferas. E aquele sujeito que diz não nas reuniões de brainstorm, que sempre derruba qualquer ideia nova, destrói insights inovadores na raiz.

A consciência aberta cria uma plataforma mental para descobertas criativas e insights inesperados. Na consciência aberta, não temos advogado do diabo, nem cinismo ou julgamento — apenas receptividade absoluta para o que quer que surja na mente.

Mas uma vez que topamos com um ótimo insight criativo, precisamos assumir um foco apurado para capturar nosso prêmio e avaliar como vamos aplicá-lo. A serendipidade vem primeiro com a abertura à possibilidade, e depois com a concentração em aplicar um insight.

Os desafios criativos da vida raramente vêm na forma de enigmas bem formulados. Na verdade, normalmente precisamos reconhecer até mesmo a necessidade de encontrar uma solução criativa, para começo de conversa. A sorte, como disse Louis Pasteur, favorece uma mente preparada. O devaneio incuba a descoberta criativa.

Um modelo clássico dos estágios da criatividade representa três modalidades de foco: o foco orientado, quando buscamos e mergulhamos em qualquer tipo de dado; a atenção seletiva, no desafio criativo específico; e a consciência aberta, quando nos entregamos à associação livre para permitir que surja uma solução — e então nos concentramos na solução. Os sistemas cerebrais envolvidos na divagação da mente também foram observados em atividade pouco antes de pessoas examinadas chegarem a um insight criativo — e apresentam atividade incomum em quem sofre de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH. Adultos com TDAH, comparados com adultos sem o transtorno, também mostram níveis maiores de pensamento criativo original e mais realizações criativas reais. 8 O empresário Richard Branson, fundador do império corporativo construído a partir da Virgin Air e outras empresas, se ofereceu como garoto propaganda para a ideia de que alguém pode ter sucesso com TDAH.

]O centro de controles de doenças do governo federal norte-americano diz que quase 10% das crianças têm o transtorno numa forma misturada com a hiperatividade. Em adultos, a hiperatividade diminui, restando o déficit de atenção. Cerca de 4% dos adultos parecem enfrentar o problema. 9 Quando são desafiados com uma tarefa criativa, como encontrar novos usos para um tijolo, pessoas com TDAH se saem melhor, apesar de sua tendência à divagação mental — ou talvez por causa dela.

Todos podemos aprender alguma coisa nesse ponto. Numa experiência em que voluntários foram desafiados com a tarefa de novos usos, os que deixaram as mentes vagarem — em comparação com aqueles cuja atenção estivera totalmente concentrada — apresentaram 40% mais ideias originais. E quando pessoas que haviam empreendido realizações criativas — como um romance, uma patente ou uma mostra de arte — foram testadas na habilidade de deixar de fora informações irrelevantes para se focarem numa tarefa, suas mentes divagaram com mais frequência do que as de outros — uma consciência aberta que pode ter lhes servido bem no trabalho criativo.

Em nossos momentos criativos menos frenéticos, pouco antes de um insight, o cérebro costuma descansar em um foco aberto e relaxado, caracterizado por um ritmo alfa. Isso sinaliza um estado de devaneio ou sonho acordado. Como o cérebro armazena diferentes tipos de informações em circuitos de amplo alcance, uma consciência vagando livremente aumenta as chances de associações com serendipidade e novas combinações.

Rappers imersos no freestyling, quando improvisam letras na hora de cantar, demonstram uma atividade aumentada no circuito de divagação mental, entre outras partes do cérebro — permitindo novas conexões entre redes neurais distantes. 11 Nesta espaçosa ecologia mental, temos mais propensão a fazermos novas associações, à sensação arrá! que marca um insight criativo — ou uma boa rima.

Num mundo complexo, no qual quase todos têm acesso à mesma informação, surge um novo valor da síntese original, da união de ideias de forma inovadora e das perguntas inteligentes que ativam potenciais intocados. Insights criativos implicam a junção de elementos de um modo útil e original.

Imagine por um instante uma mordida numa maçã crocante: a tonalidade das cores na casca, os sons da dentada, os sabores, os cheiros e as texturas. Pare um momento para experimentar essa maçã virtual.

Quando esse momento imaginário ganhou vida em sua mente, o seu cérebro quase que certamente gerou um pico gama. Esses picos gama são velhos conhecidos dos neurocientistas. Eles ocorrem rotineiramente durante operações mentais como esta mordida numa maçã virtual — e logo antes de insights criativos.

Seria excessivo considerar as ondas gamas como algum tipo de segredo da criatividade. Mas o local do pico gama durante um insight criativo parece revelador: uma área associada aos sonhos, a metáforas, à lógica da arte, do mito e da poesia. Esses elementos operam na linguagem do inconsciente, uma esfera onde tudo é possível. O método da associação livre de Freud, em que falamos o que quer que nos venha à mente sem censura, abre uma porta para esta modalidade de consciência aberta.

Nossa mente tem infinitas ideias, lembranças e associações potenciais esperando para ser feitas. Mas a probabilidade de a ideia certa se ligar com a lembrança correta dentro do contexto adequado — e tudo isso ser capturado pelo holofote da atenção — diminui drasticamente quando estamos ou hiperfocados ou sobrecarregados demais por distrações para percebermos o insight.

Além disso, há também o que está armazenado no cérebro de outras pessoas. Durante cerca de um ano, os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson pesquisaram o universo com equipamentos novos e poderosos, muito mais potentes do que qualquer outro que já tivesse sido usado para vasculhar a vastidão dos céus. Ficaram sobrecarregados por um mar de dados originais e tentaram simplificar o trabalho ignorando uma estática sem significado, que supuseram se dever a problemas no equipamento.

Um dia, um encontro casual com um físico nuclear lhes deu o insight (e, por fim, um Prêmio Nobel) que os levou a perceber que o que eles vinham interpretando como “ruído” era na realidade um sinal fraco das contínuas reverberações do big bang.

O CASULO CRIATIVO

“A mente intuitiva é um dom sagrado e a mente racional, um servo fiel, disse um dia Albert Einstein. Criamos uma sociedade que honra o servo e se esqueceu do dom”.

Para muitos de nós, é simplesmente um luxo conseguir durante o dia alguns momentos particulares sem interrupções em que possamos nos recostar e refletir. No entanto, esses são alguns dos momentos mais valiosos do dia, principalmente quando se trata de criatividade.

Mas há algo mais exigido para essas associações frutificarem numa inovação viável: a atmosfera correta. Precisamos de tempo livre no qual possamos manter uma consciência aberta.

O fluxo ininterrupto de e-mails, textos, contas a pagar — a “catástrofe completa” da vida — nos deixa num estado cerebral contrário ao foco aberto no qual as descobertas com serendipidade prosperam. Em meio ao tumulto das nossas distrações diárias e das nossas listas de tarefas, a inovação trava; nos tempos livres, ela floresce. É por isso que os anais das descobertas são repletos de histórias sobre insights brilhantes que acontecem durante uma caminhada ou um banho, num passeio longo ou nas férias.

O tempo livre deixa o espírito criativo florescer. Agendas apertadas o matam.
Tomemos como exemplo o falecido Peter Schweitzer, um dos fundadores do campo moderno de avaliação da criptografia — códigos cifrados que parecem não ter sentido para olhos destreinados, mas protegem o sigilo de tudo desde os registros de um governo à senha do seu cartão de crédito. 13 A especialidade de Schweitzer: decifrar códigos com um teste amigável de criptografia que lhe diz se algum inimigo, como um hacker mal intencionado, pode invadir o seu sistema e roubar os seus segredos.

Este desafio hercúleo exige que seja gerada uma enorme gama de novas soluções potenciais para um problema extraordinariamente complicado, e depois exige que cada solução seja testada, passando por um metódico número de passos.
O laboratório de Schweitzer para essa tarefa intensa não era uma sala sem janelas e à prova de som. Ele normalmente ficava pensando num código criptografado dando uma longa caminhada ou simplesmente pegando sol, de olhos fechados. “Parecia alguém tirando uma soneca, mas estava fazendo complexos cálculos matemáticos mentalmente”, comenta um colega. “Ficava deitado tomando banho de sol e, enquanto isso, a mente funcionava a zilhões de quilômetros por hora.”

A relevância desses casulos no tempo e no espaço surgiu de um estudo da Harvard Business School sobre a forma de trabalho interno de 238 membros das equipes de projetos criativos, que recebiam como tarefas desafios de inovação que iam de solucionar complexos problemas de TI a inventar equipamentos de cozinha.  O progresso nos trabalhos desse tipo exige um fluxo constante de pequenos insights criativos.

Dias considerados bons para insights não tinham nada a ver com avanços impressionantes ou grandes vitórias. A chave se revelou nas pequenas vitórias — inovações menores e solução de problemas perturbadores — em passos concretos rumo a um objetivo maior. Insights criativos fluíam melhor quando as pessoas tinham objetivos claros, mas também liberdade nos meios usados para atingi-los. E, o mais importante, tinham períodos de tempo reservados — o bastante para realmente pensarem livremente. Um casulo criativo.

ENCONTRANDO O EQUILIBRIO

“A faculdade de trazer de volta voluntariamente uma atenção divagadora, muitas e muitas vezes, é a própria raiz do juízo, do caráter e da vontade”, observou o fundador da psicologia americana, Wiliam James.

Mas se você perguntar a alguém: “Você está pensando em alguma coisa além do que está fazendo no momento?”, há 50% de chances de que a mente dela esteja divagando.

Essa porcentagem muda imensamente dependendo de qual seja a atividade do momento. Uma pesquisa aleatória feita com milhares de pessoas descobriu que o foco no aqui e agora era compreensivelmente muito maior quando estavam fazendo amor (mesmo entre aquelas que responderam essa consulta mal catalogada, feita a partir de um aplicativo de telefone). Numa segunda posição mais distante estavam os exercícios, seguidos por conversar com alguém e jogar. Em contrapartida, a divagação da mente era mais frequente durante o trabalho (patrões, prestem atenção), no computador de casa ou no decorrer do trajeto casa-trabalho-casa.

Em média, os humores das pessoas normalmente pioravam quando suas mentes divagavam. Até mesmo pensamentos de conteúdos aparentemente neutros eram encobertos por um tom emocionalmente negativo. A divagação da mente por si só parecia ser motivo de infelicidade.

Para onde nossos pensamentos divagam quando não estamos pensando em nada em especial? Basicamente, são todos sobre o eu.

O “eu”, conforme propôs William James, unifica nosso senso de self ao nos contar a nossa história — encaixando pedaços aleatórios de vida numa narrativa coesa. Esta narrativa é-tudo-sobre-mim fabrica uma sensação de permanência por trás das nossas experiências momento a momento, em constante mutação. O “eu” reflete a atividade de uma área-padrão, aquele gerador da mente inquieta, perdido num fluxo de pensamento divagador que tem pouco ou nada a ver com a situação presente e tudo a ver com, bem, o “eu”. Este hábito mental se instala sempre que damos à mente um descanso após alguma atividade focada.

Associações criativas à parte, a divagação da mente tende a nos centrar em nosso eu e em nossas preocupações: todas as várias coisas que eu preciso fazer hoje, a coisa errada que eu disse para aquela pessoa, o que eu deveria ter dito em vez daquilo. Embora a mente às vezes divague para alguns pensamentos ou fantasias agradáveis, normalmente parece gravitar em torno de ruminações e preocupações.

O córtex pré-frontal medial dispara, e nosso solilóquio e nossas ruminações geram um contexto de baixo nível de ansiedade. Mas durante a concentração total, uma área próxima, o córtex pré-frontal lateral, inibe essa área medial. Nossa atenção seletiva desseleciona esses circuitos de preocupações emocionais, o tipo mais poderoso de distração. Reagindo aos acontecimentos, ou a algum tipo de foco ativo, nosssa atenção seletiva desliga o “eu”, enquanto o foco passivo nos volta para o confortável atoleiro das nossas ruminações.

Não é a conversa das pessoas ao nosso redor que tem mais poder de nos distrair, mas a conversa da nossa própria mente. A concentração absoluta exige que essas vozes internas se calem. Comece a subtrair setes sucessivamente de cem e, se mantiver o foco na tarefa, sua zona de conversa ficará em silêncio.

O ADVOGADO E A PASSA

Como litigante, o advogado alimentou sua carreira ao mobilizar uma raiva efervescente pelas injustiças sofridas por seus clientes. Energizado pela indignação, era incansável na defesa de seus casos. Fazia suas argumentações com envolvimento absoluto, passava noites em claro, pesquisava e se preparava. Frequentemente ficava deitado acordado na cama a maior parte da noite, espumando, enquanto revisava várias vezes as aflições dos clientes e planejava sua estratégia jurídica.

Então, durante umas férias, conheceu uma mulher que dava aulas de meditação e pediu que ela o ensinasse. Para sua surpresa, ela começou dando a ele algumas uvas-passas. Ela então o guiou pelos passos de comer uma das passas lentamente, com foco total, saboreando a riqueza de cada momento daquele processo: as sensações de quando ele a levou até a boca e mastigou, a explosão de sabores ao mordê-la, os sons do ato de comer. Ele submergiu na completude de seus sentidos.

Então, como ela o instruiu, ele voltou aquele mesmo foco totalmente centrado no momento para o fluxo natural de sua respiração, liberando todo e qualquer pensamento que passasse por sua mente. Com a orientação dela, ele continuou essa meditação sobre sua respiração ao longo dos 15 minutos seguintes.

Conforme foi fazendo isso, as vozes em sua mente foram silenciando. “Foi como acionar um interruptor para um estado zen”, ele disse. Gostou tanto daquilo, que transformou num hábito diário: “Depois que termino, me sinto muito calmo — e gosto muito disso.”

Quando voltamos essa atenção completa para os nossos sentidos, o cérebro silencia sua conversa-padrão. Exames cerebrais realizados durante a atenção plena — a forma de meditação que o advogado estava experimentando — revelaram que ela acalma os circuitos cerebrais para conversas mentais com foco no eu.

O que por si só pode ser um imenso alívio. “Considerando que fluxo e absorção total significam abandonar este estado de divagação da mente e focar totalmente numa atividade, provavelmente estaremos desativando os circuitos-padrão”, diz o neurocientista Richard Davidson. “Não é possível ruminar sobre si mesmo enquanto se está absorto numa tarefa desafiadora.”

“Este é um dos motivos pelos quais as pessoas adoram esportes radicais como alpinismo, uma situação em que é preciso estar totalmente focado”, acrescenta Davidson. O foco poderoso traz uma sensação de paz e, com ela, alegria. “Mas quando descemos a montanha, a rede autorreferente traz as preocupações e os problemas imediatamente de volta.”

Em A ilha, romance utópico de Aldous Huxley, papagaios treinados voam até pessoas escolhidas ao acaso e gorjeiam: “Aqui e agora, pessoal, aqui e agora!” Esse lembrete ajuda os habitantes da idílica ilha a despertarem de seus devaneios e voltarem a se focar no que está acontecendo naquele lugar e naquele instante.

Um papagaio parece uma escolha adequada de mensageiro: animais vivem apenas o aqui e agora. Um gato subindo no seu colo para ganhar carinho, um cachorro esperando ansiosamente por você na porta, um cavalo entortando a cabeça para interpretar suas intenções enquanto você se aproxima, todos compartilham o mesmo foco no presente.

Esta capacidade de pensar de forma independente de um estímulo imediato — sobre o passado e o futuro, em todas as suas possibilidades — separa a mente humana das mentes de quase todos os outros animais. Embora muitas tradições espirituais, como os papagaios de Huxley, vejam a divagação da mente como uma fonte de infelicidade, psicólogos evolucionistas a veem como um grande salto cognitivo. Ambas as visões detêm alguma porção de verdade.

Na visão de Huxley, o agora eterno abriga tudo o que precisamos para nos realizarmos. No entanto, a capacidade humana de pensar em coisas que não estão acontecendo naquele presente eterno representa um grande salto evolutivo, um pré- requisito para todas as realizações da nossa espécie que exigiram planejamento, imaginação ou habilidade logística. E isso basicamente define todas as realizações unicamente humanas.

Remoer coisas que não estão acontecendo aqui e agora — “pensamento independente da situação”, como chamam os cientistas cognitivos — exige que dissociemos os conteúdos da nossa mente do que nossos sentidos percebem naquele instante. Então, até onde sabemos, nenhuma outra espécie é capaz de fazer esta troca radical de um foco externo para um foco interno com qualquer coisa que se aproxime do poder da mente humana, nem com a mesma frequência.

Quanto mais nossa mente divaga, menos conseguimos registrar o que está acontecendo aqui e agora. Pensemos na compreensão do que estamos lendo. Quando voluntários tiveram os olhares monitorados enquanto liam a totalidade do livro Razão e sensibilidade, de Jane Austen, movimentos erráticos dos olhos sinalizavam que ocorria uma grande quantidade de leitura desatenta.

Olhos desatentos indicam um rompimento na conexão entre a compreensão e o contato visual com o texto enquanto a mente vagueia para outro lugar (poderia ter havido muito menos se os voluntários tivessem tido a liberdade de escolher o que leriam — digamos A Guerra dos Tronos ou Cinquenta tons de cinza, dependendo do gosto deles).

Usando ferramentas como flutuações no olhar ou “amostras de experiências aleatórias” (em outras palavras, apenas perguntando a alguém o que está acontecendo) enquanto as pessoas estão tendo os cérebros examinados, neurocientistas descobriram uma importante dinâmica neural: enquanto a mente divaga, nossos sistemas sensoriais desligam e, inversamente, enquanto nos focamos no aqui e agora, os circuitos neurais para a divagação da mente desligam.

No nível neural, a divagação da mente e a consciência perceptiva tendem a inibir uma a outra: o foco interno da nossa linha de pensamento ignora os sentidos, ao passo que o fascínio pela beleza de um pôr do sol aquieta a mente. 5 Este desligamento pode ser total, como quando ficamos absolutamente absortos no que estamos fazendo.

Nossas configurações neurais usuais permitem um pouco de divagação enquanto nos dedicamos ao mundo — ou uma dedicação apenas suficiente enquanto estamos à deriva — como quando sonhamos acordados enquanto dirigimos. É claro que essa sintonia parcial apresenta riscos: um estudo feito com mil motoristas feridos em acidentes descobriu que aproximadamente metade deles disse que estava com a mente divagando pouco antes do acidente.

Quanto mais intensos os pensamentos distruptivos, maior a probabilidade de que tenha sido o motorista o causador do acidente. 6 Situações que não exigem constante foco em tarefas — especialmente situações chatas ou de rotina — liberam a mente para divagar. Conforme a mente vagueia e a rede-padrão se ativa com mais força, nossos circuitos neurais para o foco em tarefas se acalma — outra forma de dissociação parecida com aquela que existe entre os sentidos e o devaneio. Como o devaneio concorre com foco em tarefas por energia neural e percepção sensorial, não é de espantar que quando sonhamos acordados cometemos mais erros em qualquer coisa que requeira atenção focada.

A MENTE DIVAGADORA

“Sempre que perceber a sua mente divagando”, orienta uma instrução fundamental de meditação, traga-a de volta para seu ponto focal. O trecho importante aqui é sempre que perceber. Quando nossa mente vagueia, quase nunca percebemos o instante em que ela se lança para outra órbita. Um meandro distante do foco da meditação pode durar segundos, minutos ou toda a sessão antes que percebamos, se é que chegamos a perceber.

Esse simples desafio é tão difícil porque os mesmos circuitos cerebrais de que precisamos para segurarmos nossa mente quando ela divaga são recrutados para a rede neural que deixa a mente à deriva em primeiro lugar. 7 O que eles estão fazendo? Aparentemente, administrando as partes aleatórias que preenchem uma mente em divagação para que deem lugar a uma detalhada linha de pensamento, do tipo: “Como vou pagar as minhas contas?” Essas linhas de pensamento demandam uma cooperação entre o circuito divagador da mente e o que faz o controle cognitivo.

Capturar uma mente divagando no ato é uma ideia elusiva. Mais frequentemente do que imaginamos, quando nos perdemos em pensamentos, falhamos no intuito de perceber que nossa mente chegou a divagar. Perceber que a nossa mente está divagando marca uma mudança na atividade cerebral; quanto maior essa metaconsciência, mais fraca se torna a divagação da mente. 9 Imagens cerebrais revelam que no instante em que surpreendemos nossa mente à deriva, esse ato de metaconsciência diminui a atividade dos circuitos executivo e medial, mas não os detém completamente.

A vida moderna valoriza o fato de ficarmos sentados na escola ou num escritório, focando nossa atenção em uma coisa de cada vez, valorizando ainda uma postura de atenção que pode nem sempre ter valido a pena no começo da história humana. Alguns neurocientistas argumentam que, em momentos fundamentais, a sobrevivência na vida selvagem pode ter dependido de uma rápida troca da atenção e da ação ligeira, sem hesitação para pensar no que fazer. O que hoje diagnosticamos como déficit de atenção pode refletir uma variação natural nos estilos de foco que teve vantagens ao longo da evolução — e, dessa forma, continua se misturando ao nosso reservatório genético.

Quando encaram uma tarefa mental que exija foco, como problemas complicados de matemática, como já vimos, as pessoas com TDAH demonstram ao mesmo tempo mais divagação da mente e uma atividade aumentada no circuito medial. 11 Porém, quando as condições são adequadas, aqueles com TDAH podem ter um foco apurado e permanecer completamente absortos na atividade em questão. Essas condições talvez se apresentem com maior frequência num estúdio de arte, numa quadra de basquete ou numa bolsa de valores — e não numa sala de aula.

NO PRUMO

Em 12/12/12, exatamente o dia que o calendário maia supostamente previa para o fim do mundo(de acordo com boatos claramente infundados) minha mulher e eu levamos uma de nossas netas ao Museu de Arte Moderna. Artista em desenvolvimento, ela estava disposta a ver o que estava sendo exibido.

Entre as primeiras mostras que nos receberam na entrada da primeira galeria do MoMA estavam dois aspiradores de pó de tamanho industrial, cilindros brancos impecáveis com três rodas e listras. Estavam empilhados um sobre o outro dentro de cubos de acrílico, com luzes de neon embaixo de cada um fazendo-os brilhar. Nossa neta não ficou impressionada. Ela estava ansiosa para ver o Céu Noturno de Van Gogh, numa galeria vários andares acima.

Justamente na noite anterior, o curador principal do MoMA havia promovido uma noite com o tema “atenção e distração”. O foco da atenção é a chave para as mostras do museu: as molduras ao redor da arte anunciam para onde devemos olhar. Aqueles cubos de vidro e as luzes de neon direcionavam nossa atenção para ali, na direção dos reluzentes aspiradores de pó, e para longe de lá — qualquer outro ponto em que ela estivesse focada na galeria.

Eu me dei conta disso quando saímos. Perto de uma parede que parecia fora do caminho, no saguão imenso do museu, notei algumas cadeiras empilhadas desordenadamente, esperando para serem arrumadas para algum evento especial. Escondido perto delas, à sombra, mal pude identificar o que parecia ser um aspirador de pó. Ninguém prestava nenhuma atenção nele.

Mas a nossa atenção não precisa estar à mercê de como o mundo ao nosso redor é emoldurado. Podemos escolher observar o aspirador de pó no escuro tanto quanto aquele que está sob o holofote. Manter a atenção no prumo reflete um modo mental em que simplesmente percebemos o que quer que entre em nossa consciência sem nos prendermos ou sermos arrebatados por qualquer coisa em particular. Tudo flui através de nós.

Esta abertura pode ser vista nos momentos cotidianos em que, por exemplo, você se pega esperando numa fila atrás de um cliente que está demorando horrores e, em vez de se focar na sua irritação ou em como isso vai atrasá-lo, simplesmente se permite aproveitar a música ambiente da loja.

A reatividade emocional nos coloca em um modo de atenção diferente, em que nosso mundo se reduz à fixação no que está nos incomodando. As pessoas que têm dificuldade de manter a consciência aberta tipicamente se incomodam com detalhes irritantes como aquela pessoa na frente delas na fila de segurança do aeroporto que levou uma vida para aprontar os pertences na esteira rolante — e ainda estarão furiosas com isso enquanto esperam pelo avião no portão de embarque. Mas não existem sequestros emocionais na consciência aberta — apenas a riqueza do momento.

Uma medida cerebral para esse tipo de atenção aberta avalia com que competência as pessoas conseguem acompanhar uma sequência de letras na qual um número aparece ocasionalmente: S, K, O, E, 4, R, T, 2, H, P…
Como resultado, muitas pessoas fixam a atenção no primeiro número, 4, e deixam de ver o segundo, o 2. A atenção delas pisca. Aquelas que têm um foco aberto forte, porém, registram também o segundo número.

Pessoas capazes de deixar a atenção neste modo aberto percebem mais coisas sobre o que as cercam. Mesmo no movimento intenso de um aeroporto, elas são capazes de manter uma consciência estável e contínua do que está acontecendo, em vez de se perder nesse ou naquele detalhe. Em exames cerebrais, aqueles que obtêm pontuação mais alta em consciência aberta registram uma quantidade maior de detalhes vistos de relance num instante do que a maioria das pessoas. A atenção deles não pisca.

Essa melhora da atenção se aplica também à nossa vida interior — no modo aberto, entendemos muito melhor nossos sentimentos, sensações, pensamentos e lembranças do que quando, por exemplo, estamos focados na nossa lista de afazeres ou correndo de uma reunião à outra.

“A capacidade de manter a atenção aberta numa consciência panorâmica”, diz Davidson, “permite que você observe com equidade, sem ficar preso a uma rede ascendente que engana a mente em termos de julgamento e reatividade, sejam negativos ou positivos”.

Essa capacidade também diminui a divagação da mente. O objetivo, ele acrescenta, é ser mais capaz de se envolver na divagação da mente quando se quer e não quando não se quer.

RESTAURANDO A ATENÇÃO

De férias num resort tropical com a família, lamenta o editor William Falk, ele se viu sentado olhando fixamente para o seu trabalho enquanto a filha esperava por ele para ir à praia.

“Há não muito tempo”, Falk reflete, “eu teria considerado impensável trabalhar durante as férias. Eu me lembro de períodos gloriosos de duas semanas em que eu não tinha qualquer contato com chefes, subordinados ou mesmo amigos. Mas isso era antes de eu viajar com um smartphone, um iPad e um laptop e aprender a gostar de viver num fluxo constante de informação e conexão”.

Levemos em conta o esforço cognitivo demandado por nossa nova sobrecarga normal de informações — a explosão de fluxos de notícias, e-mails, telefonemas, tweets, blogs, chats, reflexões sobre opiniões a que expomos diariamente nossos processadores cognitivos.

Esse zumbido neural adiciona tensão às demandas de se fazer alguma coisa. Selecionar um foco preciso exige inibir muitos outros. A mente precisa lutar para se afastar de todo o resto, separando o que é importante do que é irrelevante. Isso demanda esforço cognitivo.

A atenção firmemente focada se cansa — muito parecido com o que ocorre com um músculo que trabalha demais — quando a forçamos ao ponto da exaustão cognitiva. Os sinais de fadiga mental, como uma queda na efetividade e um aumento da distração e da irritabilidade, significam que o esforço necessário para manter o foco esgotou a glicose que alimenta a energia neural.

O antídoto para a fadiga da atenção é o mesmo para a fadiga física: descansar. Mas como descansar um músculo mental?

Tente trocar do esforço de controle descendente para atividades mais passivas ascendente, fazendo uma pausa relaxante num ambiente tranquilo. Os ambientes mais tranquilos estão na natureza, argumenta Stephen Kaplan, da Universidade de Michigan, que propõe o que ele chama de “teoria da restauração da atenção”.

Essa restauração ocorre quando passamos de um estado de atenção esforçada, em que a mente precisa anular as distrações, para um estado em que nos deixamos livres e permitimos que nossa atenção seja capturada pelo que quer que se apresente. Mas apenas certos tipos de foco ascendente agem de modo a restaurar energia para a atenção focada. Navegar na Internet não é o caso.

Fazemos bem de nos desconectarmos regularmente. Tempos em silêncio restauram nosso foco e nossa serenidade. Mas essa desconexão é apenas o primeiro passo. O que fazemos a seguir também importa. Dar uma caminhada por uma rua da cidade, observa Kaplan, ainda exige da nossa atenção — precisamos atravessar multidões, desviar de carros e ignorar os barulhos de buzina e os demais ruídos da rua.

Por outro lado, uma caminhada num parque ou bosque exige pouco desse tipo de atenção. Podemos nos restaurar passando algum tempo na natureza — até mesmo alguns minutos caminhando num parque ou em qualquer local rico em coisas fascinantes como os tons avermelhados das nuvens durante o pôr do sol ou o voo de uma borboleta. Isso provoca “modestamente” a atenção ascendente, como define o grupo de Kaplan, permitindo que os circuitos que fazem os esforços descendentes recuperem sua energia, restaurando a atenção e a memória, e melhorando a cognição.

Uma caminhada em meio às arvores leva a um melhor foco para a retomada de tarefas que exigem concentração do que um passeio a pé pelo centro da cidade.  Até mesmo se sentar diante de um mural que retrate uma cena da natureza — especialmente alguma cena com água — é melhor do que a cafeteria da esquina.

Mas eu me coloco uma questão. Esses momentos relaxantes parecem ótimos para desligar de uma concentração intensa, mas abrem o caminho para a atitude de divagação, que ainda mantém ocupado o circuito-padrão. Há mais um passo que podemos dar para desligar a mente ocupada: foco total em alguma coisa relaxante.
A chave é uma experiência imersiva, em que a atenção possa ser total, mas largamente passiva. Isso começa a acontecer quando estimulamos gentilmente os sistemas sensoriais, que acalmam os sistemas do foco esforçado. Um filme interessante pode produzir um pouco deste efeito neural. Qualquer coisa em que consigamos nos perder prazerosamente servirá. Lembre-se: naquela pesquisa sobre os humores das pessoas, a atividade mais focada no dia de qualquer pessoa, e a mais agradável, é fazer amor.

Mas a absorção total e positiva bloqueia a voz interior, aquele diálogo constante com nós mesmos que acontece mesmo durante nossos momentos tranquilos. Esse é o principal efeito de quase todas as práticas contemplativas que mantêm a sua mente focada num alvo neutro, como a sua respiração ou um mantra.

Conselhos tradicionais sobre o local adequado para um “retiro” parecem incluir todos os ingredientes necessários para a restauração cognitiva. Mosteiros designados à meditação são sempre ambientes tranquilos, silenciosos e próximos à natureza.

Não que precisemos chegar a tais extremos. Para William Falk, o remédio foi simples: ele parou de trabalhar e foi brincar com a filha nas ondas do mar. “Pulando e gritando nas ondas com a minha filha, eu estava completamente presente no momento. Completamente vivo.”

Fonte: Goleman, Daniel. Editora Objetiva; Edição: 1 (10 de janeiro de 2014)
Digitação: Tamara Cristine, para o Ciência Contemplativa.

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