Como Cérebros Felizes Respondem às Coisas Negativas

Como os Cérebros Felizes Respondem às Coisas Negativas

Uma pesquisa recente traz um entendimento totalmente novo sobre a amígdala cerebral – e indica que as pessoas felizes percebem o ruim junto com o bom.

Por Summer Allen e Jeremy Adam Smith | 29 de março de 2016

Você derruba um copo enquanto prepara o café da manhã. Fica preso no tráfego em seu caminho para o trabalho. Seu chefe grita com você por estar atrasado. Parabéns! Você está tendo uma péssima manhã. Isso acontece com todo mundo, uma hora ou outra. Mas a forma como nós reagimos às coisas ruins na vida revela muito sobre nosso cérebro.

Nem é preciso dizer que as pessoas mais joviais são mais hábeis em regular suas emoções do que as pessoas de personalidade mais sombria, que tendem a ficar mais abatidas por eventos desagradáveis. Por que será?
Há várias possibilidades. Uma é que as pessoas mais felizes usam, metaforicamente, “óculos cor-de-rosa”que lhes permite focar nas coisas positivas e filtrar as negativas. Outra possibilidade, é que as pessoas mais felizes simplesmente são melhores em apreciar as boas coisas e deixar que elas lhes levantem o moral, ainda que também estejam vendo as coisas negativas.
E por que essa questão é importante? Por causa de suas implicações no modo como você vê a vida. Seria melhor ignorar as negatividades e fracassos, ou fortalecer sua habilidade em focar apenas no bom sem encobrir o ruim?
Um modo de testar essas hipóteses é examinar a atividade da amígdala—uma pequena região amendoada do cérebro—em pessoas com diferentes estilos emocionais. Por anos, neurocientistas têm visto a amígdala cerebral como o primitivo “centro do medo” do cérebro, o vigia constante das possíveis ameaças. Em algumas pessoas, o aumento na atividade da amígdala tem sido associado à depressão e ansiedade. Entretanto, pouco se sabe sobre como a amígdala responde a estímulos positivos—e como essa atividade pode se relacionar com as emoções positivas.
Isso é o que os psicólogos William Cunningham na Universidade de Toronto e Alexander Todorov da Universidade Princeton estão estudando com seus colegas. Em uma série de estudos recentes financiados pela Fundação John Templeton (que também financia o trabalho do Greater Good Science Center), eles descobriram uma amígdala totalmente nova—que está envolvida na conexão humana, compaixão e felicidade. Até o presente momento, de acordo com essa pesquisa, as pessoas mais felizes não ignoram as ameaças. Elas simplesmente podem ser melhores em ver o lado bom.
Para que serve a amígdala?
Uma zebra selvagem precisa se manter continuamente alerta quanto a leões e outros predadores, mesmo enquanto está envolvida em alguma tarefa, como procurar por água ou por um parceiro. Os cientistas têm tradicionalmente ligado essa função de vigilância à amígdala. Entretanto, uma pesquisa recente indica que a amígdala também está ativa quando as pessoas estão tentando encontrar condições que atendem suas necessidades básicas de sobrevivência, como no caso de nossa zebra, com interesse em beber, comer, e acasalar.
Uma vez que as situações ameaçadoras podem ter consequências fatais, faz sentido que a amígdala seja ativada para reagir a todos os estímulos de medo. Mas será que a amígdala também responde a todos os estímulos positivos? A amígdala de nossa zebra seria ativada a cada vez que ela vê uma cavidade com água, mesmo sendo algo bom e não algo ruim?

Cunningham e colaboradores analisaram essas questões em um estudo publicado em 2015 na revista Journal of Cognitive Neuroscience. Eles expuseram uma série de imagens, lado a lado, aos participantes—15 pessoas no total—enquanto registravam a atividade de suas amígdalas por meio de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI). Os conteúdos emocionais das fotos variavam (positivo, negativo, ou neutro) assim como a intensidade das emoções que elas evocavam.

Dos dados obtidos, Cunningham e seus colaboradores encontraram que as imagens negativas provocaram atividade na amígdala, como esperado. As imagens positivas também o fizeram—mas somente quando se solicitou explicitamente aos participantes que focassem nelas.
Os seres humanos têm uma tendência negativa, uma tendência em focar nas ameaças. Mas esses resultados sugerem que as pessoas podem ser hábeis em compensar essa tendência, focando conscientemente mais nas coisas positivas. Como os autores escreveram,“as pessoas atendem automaticamente aos estímulos negativos, porém com habilidade e motivação adequadas elas podem mostrar a mesma sensibilidade com os estímulos positivos.”
Um outro estudo—a ser publicado brevemente no livro Positive Neuroscience, conduzido por um grupo que incluiu Cunningham e Todorov, concluiu que a amígdala“deve também estar na essência da compaixão.”Os pesquisadores escanearam o cérebro dos participantes enquanto eles viam fotos de pessoas que poderiam ser úteis em atingir um objetivo—ou precisando de ajuda. Eles encontraram que a atividade da amígdala apresentou um pico quando os participantes perceberam a pessoa necessitando de ajuda. Não surpreendentemente, isso foi confirmado entre os participantes que conseguiram maior pontuação em empatia.

Segundo os autores, outra pesquisa relacionou a habilidade de se conectar e ajudar os outros ao bem-estar pessoal. Em conjunto, esses estudos sugerem que os seres humanos possuem um“instinto compassivo”subconsciente—um impulso de ajudar as pessoas que existe mesmo nas partes do cérebro que são algumas vezes referidas como“primitivas”ou“reptilianas.”Esse artigo conclui:
Este projeto de pesquisa propõe que nosso sistema evolutivamente mais antigo seja não apenas fonte de imoralidade e egoísmo, mas que quando afinado com nossos objetivos, pode contribuir para a moralidade e para um comportamento justo. Assim, a prosperidade humana não vem da supressão de aspectos do ego, e sim através da integração de todos os processos relevantes em uma resposta unificada.
Pessoas felizes percebem o ruim junto com o bom
Mas esta pesquisa levanta outra questão: A felicidade humana depende de filtrar as coisas negativas da vida? Ou nos termos da ciência do cérebro: Nós queremos evitar o estresse da ativação da amígdala, mesmo quando se relaciona a perceber pessoas em sofrimento? Como as pessoas felizes respondem ao copo caído, engarrafamentos, ameaças do patrão—ou mesmo à visão de um mendigo na rua?

Essa foi a questão abordada em outro estudo publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience, onde Cunningham e a estudante de Ph.D. Tabitha Kirkland buscaram determinar se as amígdalas de pessoas mais felizes respondiam diretamente a estímulos positivos e negativos, em comparação com pessoas menos felizes.

Cunningham e Kirkland registraram a atividade da amígdala de 42 participantes enquanto eles viam séries de fotos positivas, negativas e neutras. Os participantes também preencheram questionários para determinar seus níveis subjetivos de felicidade. Haveria alguma distinção no modo como o cérebro das pessoas felizes responde aos diferentes tipos de fotos?
De fato, os pesquisadores encontraram que as pessoas mais felizes tiveram maior ativação da amígdala em resposta às fotos positivas, em comparação com as pessoas menos felizes. Mas elas não tiveram redução na resposta às imagens negativas, como seria previsível pela visão de felicidade dos“óculos cor-de-rosa.”
Na verdade, os pesquisadores encontraram que“a ativação da amígdala entre os participantes mais felizes foi igualmente alta para estímulos positivos ou negativos.” De acordo com o artigo, isso indica que “as pessoas mais felizes não são necessariamente ingênuas ou cegas para a negatividade, mas sim podem responder de maneira mais adaptada ao mundo, reconhecendo ambas coisas boas e ruins na vida.”
Essa é uma descoberta particularmente interessante, por que sugere que a habilidade para sentir e responder a informações negativas pode ser realmente um importante componente da felicidade. A conclusão dos autores para esse estudo é: “Pessoas felizes são alegres, porém equilibradas.”
O resultado final dessa pesquisa é que nossa amígdala não pode mais ser vista apenas como o centro do medo do cérebro. Ao invés disso, parece que até mesmo a um nível bem profundo, instintivo, nós estamos equipados para enxergar as pessoas em necessidade e a ajudar uns aos outros—e que fazer isso poder nos ajudar a sermos felizes.

Este artigo foi publicado originalmente no Greater Good, revista online da UC Berkeley’s Greater Good Science Center, um dos colaboradores do Mindful. Ver o artigo original.

Cortesia da equipe de traduções Contemplativas: Trad. Sueli Martinez, revisão: Lama Jigme Lhawang

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