Uma evidência imaterial sobre a natureza da consciência

Evidência Imaterial
B. Alan Wallace, PHd.

Em seu recente livro, O Universo em um Único Átomo, o Dalai Lama discute sobre a imaterialidade da mente. B. Alan Wallace explica porque isso faz todo o sentido.

Todas as grandes revoluções na ciência têm sido provocadas por observações sofisticadas de fenômenos naturais. Nos séculos XVI e XVII, décadas de estudos empíricos de fenômenos físicos celestes e terrestres, conduzidos por Tycho Brahe e Galileu estabeleceram a fundação para as descobertas de Newton das leis da mecânica clássica. No século XIX, décadas de observações exaustivas de fenômenos biológicos de Darwin o habilitaram a formular sua teoria da evolução. No início do século XX, a física sofreu uma segunda revolução, a mecânica quântica e a teoria da relatividade, também baseadas em observações cada vez mais precisas e sofisticadas de fenômenos físicos.

Os estudos científicos da mente se iniciaram há mais de um século, mas ainda carecem de uma revolução comparável às da física e da biologia. Em grande parte, as hipóteses fundamentais dos cientistas cognitivos de hoje são as mesmas amplamente sustentadas no final do século XIX, e baseadas na física daquela época. A maioria dos cientistas cognitivos, incluindo psicólogos e neurocientistas, expressam enorme confiança de que a consciência seja física e que todos os processos mentais possam, em princípio, ser explicados puramente em termos de processos biológicos do cérebro. Esse consenso avassalador existe apesar de não haver (1) definição de consciência, (2) meios científicos objetivos de detectar sua presença, (3) conhecimento científico sobre os correlatos neurais da consciência e (4) conhecimento científico sobre o que existe nos eventos eletroquímicos que os faça gerar, ou mesmo influenciar, estados mentais experienciados subjetivamente. Os cientistas têm outra razão para insistir que a mente seja física, e essa é primariamente a crença de que a consciência é uma propriedade que aflora do cérebro, assim como a vida é uma propriedade que aflora dos químicos inorgânicos.

Para que a teoria fisicalista da consciência tenha sentido, nós precisamos ter uma ideia clara do que entendemos pelo termo “físico”. Isso se refere apenas à matéria? e se sim, como ela é definida? Os físicos do final do século XIX, quando o estudo científico da mente se iniciou, viam a matéria como algo reduzível a pequenas partículas e dotado de massa e localização espacial. Mas a física do século XX, especialmente a mecânica quântica, desconsidera essa noção, atribuindo às partículas diminutas da matéria a teoria de que todas as configurações de massa-energia consistem em oscilações de quantidades abstratas e imateriais no espaço vazio. Ao nível mais fundamental, matéria não é feita de matéria. A física clássica também supunha que o espaço e o tempo não tinham papel no mundo material, mas a teoria da relatividade geral demonstrou que o espaço-tempo influencia a matéria, assim como a matéria influencia o espaço-tempo. Físicos contemporâneos também incluem a informação como constituinte fundamental da realidade, e ela tem tanta eficácia causal e é tão imaterial quanto o espaço-tempo. Uma vez que entre os constituintes fundamentais da natureza já se inclui não apenas massa-energia, mas também espaço-tempo e informação, porque não considerar a consciência também como um elemento básico do universo? Físicos clássicos destacados, como John Archibald Wheeler, Roger Penrose e Andre Linde, além do matemático George F. R. Ellis, estão seriamente considerando essa provocativa questão, enquanto os cientistas cognitivos predominantes continuam a se pautar na física do século XIX.

Os cientistas cognitivos estudam a mente por meio de seus correlatos físicos comportamentais e neurais. Seu trabalho seria bem mais simples se a mecânica quântica eventualmente se mostrasse irrelevante no estudo da questão mente-cérebro. Mas Anton Zeilinger, um dos principais experimentalistas na fundação da mecânica quântica, declara que as implicações da mecânica quântica são tão profundas que exigem uma abordagem totalmente nova em nossa visão da realidade e no modo como vemos nosso papel no universo. Os efeitos quânticos no cérebro não podem ser descartados. De acordo com Zeilinger, em princípio os efeitos quânticos sobre a complexidade interna, tamanho ou a temperatura de um sistema não têm limites.

Quando nós observamos diretamente os fenômenos mentais, como pensamentos, imagens mentais, e emoções, eles não parecem ter qualquer característica atribuída à matéria, como massa e localização espacial. Há muitas evidências de que processos neurais específicos localizados no cérebro são necessários para gerar fenômenos mentais específicos. Mas não há evidências empíricas de que qualquer processo cerebral seja equivalente a qualquer processo mental. Muitos cientistas cognitivos acreditam que os eventos mentais sejam equivalentes a níveis mais elevados da atividade cerebral, mas até o momento isso é apenas uma hipótese. Ninguém sabe se os eventos mentais são equivalentes a qualquer coisas além de si mesmos; e fora um comprometimento com a ideologia do materialismo, não há bases empíricas para reduzi-los a algo “físico”, seja o que for que isso signifique.

Qualquer que seja a natureza de um fenômeno mental, é praticamente certo que ele influencie o cérebro, como indicado pelo promissor campo da neuroplasticidade. E, segundo George Ellis, não há dúvida de que as funções do cérebro são afetadas por abstrações, como o valor da moeda, regras de xadrez, e a teoria do laser. Essas abstrações não são físicas, então porque deveríamos insistir que a mente seja física, especialmente quando todas as observações de fenômenos mentais indicam o contrário?

OS CIENTISTAS COGNITIVOS ainda têm que desenvolver métodos sofisticados para observar os fenômenos mentais diretamente. Tal modo de observação em primeira-pessoa tem sido descartado, ou pelo menos marginalizado, como mera “introspecção”. E a introspecção, como em geral se crê, foi testada no final do século XIX e falhou, assim não há razão para tentar novamente. Se você não tiver sucesso na primeira vez, desista!

O problema em se recusar a fazer da introspecção a principal forma de estudar a mente, como proposto pelo pioneiro americano da psicologia William James, é que somente através da experiência em primeira pessoa, ou introspecção, que nós teremos alguma evidência direta da existência dos fenômenos mentais, incluindo a consciência. Os robôs podem reproduzir complicados tipos de comportamento sem estar conscientes, também os computadores armazenam informação e solucionam problemas sem estar conscientes. Assim, quando se trata do estudo cientifico da mente, para provar as qualidades singulares de estados de consciência, faz sentido focar nossa atenção prioritariamente nesses mesmos estados mentais e processos, e não apenas em seus correlatos físicos.

Os cientistas cognitivos- apesar de suas desconfianças com a introspecção- são obrigados a incluir observações em primeira-pessoa e relatos de experiência subjetiva em sua pesquisa, ou eles não teriam evidência direta de sua existência. Mas essas tarefas são comumente deixadas para sujeitos despreparados que são pagos com valores insignificantes por seu trabalho não qualificado. Enquanto se exige que os psicólogos e neurocientistas completem anos de graduação e pós-graduação no estudo de correlatos físicos de fenômenos mentais, o trabalho principal de observar os fenômenos mentais é deixado para os amadores. Imagine astrônomos deixando a responsabilidade de observar os fenômenos celestiais para observadores de estrelas confiando na sua visão a olho nu, enquanto os cientistas se restringem à análise dos dados! Essa abordagem é bizarra em todos os ramos das ciências naturais, e eu suspeito de que essa omissão no estudo científico da mente seja a principal razão pela qual não houve nenhuma revolução inovadora nesse campo da ciência.

Uma das maiores e incontestáveis hipóteses nas ciências da mente é que todo comportamento mental pode, em princípio, ser entendido em termos de neurobiologia. Essa crença se baseia na ideologia reducionista mais ampla de que biologia pode ser reduzida à física e física pode ser reduzida à matemática. Mas as teorias matemáticas sozinhas não definem, predizem, ou explicam o surgimento de um universo físico. As leis da física são descobertas somente com base na observação rigorosa de fenômenos físicos. As teorias físicas sozinhas não definem, predizem, ou explicam o aparecimento de organismos vivos no universo. A física sozinha não pode explicar, por exemplo, qualquer comportamento que seja adaptativo e dependa de contexto, como a construção de diques pelos castores ou a dança das abelhas. Do mesmo modo, teorias biológicas, por si sós, não definem, predizem ou explicam o surgimento de fenômenos mentais em organismos vivos. À luz da história da ciência, as leis dos fenômenos mentais somente serão descobertas através de investigação profunda e minuciosa de uma grande variedade de fenômenos mentais.

Apesar das muitas lacunas empíricas e dos enganos teóricos do conhecimento que permeiam as ciências cognitivas, muitas pessoas acreditam que nenhuma outra disciplina- especialmente alguma que possa ser considerada religiosa- seja apta a contribuir para o estudo científico da mente. Mas o Budismo, que está entre as grandes tradições contemplativas, desenvolveu rigorosos meios de observação direta dos fenômenos mentais. Fez isso por primeiro desenvolver um “telescópio da mente”, ou seja, uma atenção altamente focada e refinada, pela prática do samadhi. A possibilidade de treinar a atenção só tem sido reconhecida recentemente pela comunidade científica; a aplicabilidade da atenção refinada e focada para o exame rigoroso dos estados de consciência- dos níveis comuns e cotidianos até o mais sutil, que só pode ser alcançado através de anos de treinamento rigoroso- ainda aguarda a pesquisa.

Um dos critérios para que uma teoria seja considerada “científica” é que ela possa ser testada empiricamente e, assim, ser validada ou refutada. Os métodos consagrados para estudo científico da mente baseiam-se grandemente no exame dos correlatos físicos dos fenômenos mentais, na forma como eles se manifestam no comportamento ou na atividade cerebral. Se os cientistas cognitivos se restringem a tal pesquisa, é difícil imaginar de que maneira eles poderiam colocar suas próprias hipóteses fisicalistas em teste, já que toda a sua pesquisa se baseia na hipótese e se adapta à ideia de que a mente é física! Assim, a teoria de que a natureza “real” dos fenômenos mentais é física (contrariando sua “aparência ilusória”) não se sustenta como sendo científica. Tal como as religiões fundamentalistas que tentam apresentar suas teorias criacionistas de concepção inteligente como teorias científicas, os neodarwinistas tentam apresentar suas teorias fisicalistas da natureza biológica da mente também como teoria científica. Mas nenhuma dessas teorias se presta à validação ou rejeição empírica utilizando os métodos usuais da pesquisa científica, portanto nenhuma delas é científica. Quando uma teoria se coloca com científica mas não é, então ela é pseudo-ciência.

O princípio da navalha de Occam diz: “Não se deve utilizar mais hipóteses para fazer algo quando se pode utilizar menos.” Imagine que todas a hipóteses fisicalistas sobre a natureza da mente e consciência sejam abandonadas, restringindo os cientistas a si mesmos e ao que eles realmente sabem sobre as interações mente-comportamento e mente-cérebro. Esse “corte rente”, ou seja, a abertura das portas para a colaboração mútua com meios contemplativos de investigação sobre a consciência, deixaria a ciência mais pobre? Ou, ao contrário, encorajaria ambos, cientistas cognitivos e contemplativos, a ampliar seus métodos de investigação empírica, e ao mesmo tempo a desafiar suas próprias hipóteses não testadas? Só a experiência dirá.

B. Alan Wallace é o fundador e presidente do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies. Seu livro A Revolução da Atenção: Revelando o Poder da Mente Focada, foi revisto e reeditado neste ano pela Editora Vozes.

Cortesia da da equipe de traduções Contemplativas: Trad. Sueli Martinez, revisão: Lama Jigme Lhawang

Fonte: “Immaterial Evidence.” In Tricycle: The Buddhist Review, Spring 2006: 84-86. Para ver o original em inglês clique AQUI.

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