Os Elementos Essenciais de uma Vida Plena de Sentido

OS ELEMENTOS ESSENCIAIS DE UMA VIDA PLENA DE SENTIDO
B. Alan Wallace, PHd

Felicidade Genuína

A felicidade é um sentimento de bem-estar que subjaz e permeia todos os estados emocionais, abarcando todas as vicissitudes da vida, e que se distingue do “prazer hedonista”, que é a sensação de bem-estar provocada por estímulos prazerosos. A palavra grega que estou traduzindo como felicidade genuína é eudaimonia, a qual Aristóteles em sua Ética e Nicômaco igualou ao que há de bom no homem. Ela se manifesta como um processo da alma em concordância com a virtude, e se houver mais de uma virtude, com a melhor e mais completa.[1] Felicidade genuína não é a simples culminação de uma vida com sentido, mas uma característica da pessoa em processo de desenvolvimento ético e espiritual. Esse é um conceito intencionalmente genérico de desenvolvimento humano que deixa a cada leitor a tarefa de decidir qual é a virtude “melhor e mais completa”. É óbvio que esse ideal de felicidade genuína pode ser adotado tanto por pessoas religiosas como por não religiosas e cada uma irá definir seus atributos específicos de acordo com sua própria visão de mundo. Como veremos a seguir, esse bem-estar é consequência natural do desenvolvimento de um equilíbrio mental que propicia o fortalecimento do “sistema imunopsicológico”, com o qual a pessoa raramente sucumbe a uma vasta gama de aflições mentais. Um estado de presença serena, equilíbrio emocional e clareza mental são característicos dessa felicidade genuína, que naturalmente se expressa num modo de vida harmonioso e altruísta.

Santo Agostinho (354-430 d.C.) levantou essa questão ao declarar que a única coisa de que necessitamos é a resposta à seguinte pergunta: “Como o homem pode alcançar a felicidade?”[2] A felicidade genuína, segundo ele, é um “prazer proporcionado pela verdade”,[3] enquanto as duas causas reais dos infortúnios humanos são “a profunda ignorância” e “o amor pelas coisas vãs e perniciosas”. A busca da verdadeira felicidade, ele declarou, é motivada pelo amor a Deus, que é o desejo de união com ele. Essa ênfase na profundidade da busca de felicidade não se restringe à antiguidade grega ou à teologia cristã. O Dalai Lama escreveu em seu livro The Art of Happiness, que se tornou um best-seller: “Acredito que a busca da felicidade seja o próprio propósito da vida. Independentemente de a pessoa ter alguma crença religiosa, de acreditar nessa ou naquela religião, todos nós estamos buscando algo melhor na vida. Portanto, eu acho que o próprio movimento de nossa vida segue na direção da felicidade”.[4]

Verdade

A experiência da felicidade genuína não é alcançada como um mero resultado da satisfação de prazeres sensoriais ou de estímulos intelectuais. Tampouco é resultado da mera aprendizagem de pensar em determinada maneira ou da adoção de uma atitude otimista. Ela tem que estar baseada num verdadeiro entendimento da verdade. Mas existem muitas verdades que têm pouca relevância para o pleno desenvolvimento humano. Muitos dos aspectos do mundo natural estudado pelos cientistas parecem extremamente distantes dos valores humanos, e parece não haver razão para se acreditar que os cientistas em geral, apesar de todo seu conhecimento do mundo físico, sejam mais felizes do que os profissionais de qualquer outra área. Conforme já observamos, o enorme crescimento do conhecimento científico no século passado não correspondeu a nenhum crescimento equivalente em termos da felicidade humana, embora os avanços da medicina tenham certamente contribuído enormemente para o nosso bem-estar físico.

Isso quer dizer que as verdades relevantes à plena realização humana não são as mais comumente exploradas com sucesso pela ciência moderna. Embora os cientistas tenham focado sua atenção particularmente no mundo exterior, não existe nenhum aspecto da realidade mais pertinente à felicidade genuína do que a natureza da identidade humana. O teólogo cristão Joseph Maréchal aborda esse tópico dentro do contexto da investigação contemplativa: [5]

“A mente humana […] é uma faculdade à procura de sua intuição – ou seja, de integração com o Ser, o Ser puro e simples, uno e soberano, sem restrição, sem distinção entre essência e existência, entre possível e real […] Mas aqui embaixo, em lugar do Uno, ela se encontra com o múltiplo, o desconexo. Aqui, no que diz respeito à verdade, a multiplicidade infinita de objetos suspende a afirmação e engendra a dúvida […] A afirmação da realidade não é então nada mais que a expressão da tendência básica da mente para a unificação no e com o Absoluto.”  

Também na tradição budista, a importância do autoconhecimento não pode ser exagerada, especialmente sob a luz da afirmação budista de a causa principal do sofrimento humano ser a ignorância e a ilusão, especificamente no que diz respeito à própria identidade. De todas as virtudes enfatizadas pelo budismo, nenhuma é mais importante do que a da sabedoria, que envolve a percepção da natureza última da realidade. Shântideva, um iminente budista indiano do século VII, escreveu: “O Sábio ensinou todo esse sistema para se alcançar a sabedoria. Por isso, com o desejo de se precaver do sofrimento, a pessoa deve procurar alcançar a sabedoria”.[6]

Virtude

Exatamente como a felicidade genuína encontra-se inextricavelmente ligada à compreensão da verdade, ela tampouco pode se compreendida sem levar em consideração a virtude. Apesar das inúmeras diferentes teorias que abundam entre filósofos e teólogos, a breve definição de Santo Agostinho é particularmente notável e universal, por tê-la exposto em termos de “ordem do amor”, o que tem a ver com a prioridade dos nossos valores.[7] Seguindo as palavras de Jesus com respeito à importância central do amor a Deus e a seus semelhantes, o teólogo John Burnaby escreveu: “O amor a Deus, que é o desejo de união com Ele, e o amor entre os homens, que é o sentimento de união com todos os seres capazes de compartilhar do amor de Deus, estão de fato intrinsecamente ligados um ao outro”.  Essa é a base de todas as virtudes dentro do contexto teísta.

No contexto do budismo, que costuma ser considerada uma religião não teísta, uma vida de virtudes é a base necessária para a busca da verdade e da felicidade genuína, ou da plena realização humana. Essas virtudes são de três tipos: social/ambiental, psicológica e espiritual. Apesar de as teorias éticas do budismo estarem profundamente enraizadas na visão de mundo budista, incluindo suas doutrinas com respeito à reencarnação e ao karma, em seu livro Ethics for the New Millennium, o Dalai Lama apresentou uma visão de ética secular que é igualmente relevante tanto para adeptos como não adeptos de qualquer religião.

Bem-estar psicológico

O poder de persuasão do behaviorismo, da psicologia e da neurociência concerne a tópicos como tomada de decisão, atenção e afirmações a respeito do que as pessoas sentem em diferentes situações controladas. Os processos mentais estudados pelas ciências cognitivas são em grande medida aqueles que, de uma perspectiva evolutiva, contribuíram para que a espécie humana sobrevivesse e proliferasse. Todas as ramificações da psicofísica e da psicologia que tratam de aspectos como atenção, cognição, relações sociais e tipos de personalidade dependem das respostas das pessoas e perguntas quanto à intensidade de alguma coisa, como a cor que estão vendo, o volume de um determinado som, no que elas acreditam, quais são suas atitudes e assim por diante. Muitos desses dados foram organizados em termos de princípios coerentes e os conjuntos estruturados de descobertas que os cientistas cognitivos vêm tentando organizar e entender são muito vastos. A neurociência contemporânea veio colocar mais luz sobre o que os psicólogos exploraram em termos de memória, atenção, emoções, atitudes, etc.

Especialmente desde a Segunda Guerra Mundial, a maior parte dos estudos psicológicos, particularmente nos Estados Unidos, tem sido realizada com foco nos processos mentais normais e patológicos. Apenas recentemente, a atenção científica começou a se voltar para o bem-estar mental, mas as verbas para essas pesquisas têm sido limitadas em razão de a natureza do bem-estar e seus efeitos comportamentais não serem bem conhecidos – uma típica situação sem saída! É aí que as tradições contemplativas do mundo, que vêm há muito tempo se ocupando da felicidade humana no contexto da verdade e da virtude, poderiam dar importantes contribuições.

Dentro do vasto contexto da felicidade genuína, pode valer a pena o esforço para identificar os domínios específicos de desenvolvimento. Com base no bem-estar social e ambiental que resulta do cultivo de atitudes éticas, a pessoa pode chegar ao bem-estar psicológico que advém de uma psique saudável e equilibrada. Estou usando a palavra “psique” para designar toda uma gama de fenômenos mentais conscientes e inconscientes estudados pelos psicólogos, incluindo percepções, pensamentos, emoções, memórias, fantasias, sonhos e visões de todos os tipos. Os processos psicológicos são condicionados pelo corpo, pela história pessoal, pelo meio ambiente físico e pela sociedade, além de, a cada momento, estarem em estreita correlação com funções específicas do cérebro. A psique pode ser estudada indiretamente por meio de questionamentos individuais e do exame do comportamento do cérebro e observada diretamente pela introspecção.

Se o bem-estar psicológico resulta da saúde e equilíbrio da mente, ele precisa ser entendido com relação a tipos específicos de desequilíbrios mentais aos quais as pessoas normais – em geral consideradas relativamente saudáveis – estão comumente propensas. Um pressuposto básico por trás da análise seguinte é que o sofrimento mental seja em geral um sintoma de desequilíbrios mentais, assim como a dor física é um sintoma de doença ou ferimento.[8]  Nos próximos tópicos, vamos examinar quatro tipos de desequilíbrios mentais – relacionados com a conação, a atenção, a cognição e o afeto – e em cada um, iremos identificar os desequilíbrios em termos de deficiência, hiperatividade e disfunção.

Desequilíbrios conativos

“Conação” é um termo importante, apesar de não ser usado comumente, que tem relação com as faculdades do desejo e da volição. Os desequilíbrios conativos desviam nossos desejos e intenções do caminho da satisfação psicológica e nos causam sofrimento psicológico. Há uma deficiência conativa quando nos vemos diante da perda apática do desejo de felicidade e suas causas, bem como de uma indisposição para aliviar nosso próprio sofrimento e o de outros. Essa deficiência vem normalmente acompanhada de uma falta de imaginação e de uma espécie de estagnação complacente: não conseguimos imaginar nenhuma saída melhor e, portanto, nem tentamos alcançar bem-estar. A hiperatividade conativa ocorre quando nos fixamos em desejos obsessivos que obscurecem a realidade do presente. Estamos tão aprisionados a fantasias com respeito ao futuro – e desejos não realizados – que nossos sentidos ficaram embotados diante do que está acontecendo aqui e agora. Nesse processo, podemos também nos manter cegos para as necessidades e desejos dos outros. Finalmente, a disfunção conativa ocorre quando desejamos coisas que não conduzem a nosso próprio bem-estar nem ao de outros e não desejamos o que possa vir a contribuir para o nosso bem-estar e de outros. É crucial reconhecer que a satisfação psicológica individual não é algo que possa ser cultivado sem qualquer relação com os outros. Nós não existimos independentemente dos outros e, consequentemente, nosso bem-estar tampouco pode ocorrer independentemente dos outros. Temos que levar em conta o bem-estar das pessoas à nossa volta.

Que tipo de coisas (no sentido mais amplo, incluindo coisas e qualidades tangíveis e intangíveis) proporcionam realmente o bem-estar psicológico? Em seu livro, The High Price of Materialism, o psicólogo Tim Kasser analisa a relação entre os valores materialistas que predominam no mundo de hoje e o bem-estar que todos nós almejamos. Ele conclui:[9]

“A pesquisa científica vigente sobre o valor do materialismo revela descobertas claras e consistentes. As pessoas altamente centradas em valores materialistas têm menos bem-estar pessoal e saúde psicológica do que as que dão relativamente pouca importância às conquistas materiais. Essas relações foram documentadas em amostras que abarcam tanto ricos como pobres, adolescentes e idosos, australianos e sul-coreanos.”

Como já vimos, Santo Agostinho considerou o “amor pelas coisas vãs e perniciosas” como uma espécie de disfunção conativa, enquanto o desejo mais profundo e com base na realidade é o amor a Deus, que é o desejo de unir-se a Ele. Nicolau de Cusa, cardeal da Igreja Católica Romana do século XV, repetiu esse tema ao escrever: “Todo aquele… que busca, busca apenas o bem e todo aquele que busca o bem e se afasta de ti [Deus] se desvia do que está buscando”.[10] Shântideva tratou da mesma questão de uma perspectiva não teísta: “Aqueles que procuram escapar do sofrimento correm diretamente para ele. E apesar do desejo de felicidade, movidos pela ilusão, eles destroem o próprio bem-estar como se fosse seu inimigo.”[11]

Apesar de existirem muitas abordagens para restaurar o equilíbrio conativo, umas delas é tratar de sair da apatia pelo reconhecimento da possibilidade de felicidade genuína, curar o desejo obsessivo pelo cultivo da satisfação e reparar os desejos equivocados pelo reconhecimento das verdadeiras causas da felicidade genuína e de nossa vulnerabilidade ao sofrimento. Métodos específicos para contrabalançar os desequilíbrios conativos foram desenvolvidos por diversas tradições psicológicas e contemplativas tanto para pessoas com visão de mundo secular como teísta e não teísta.

Desequilíbrios de atenção

Ninguém que sofra de sérios desequilíbrios de atenção pode ser considerado psicologicamente saudável. A atenção deficiente é caracterizada pela incapacidade da pessoa se concentrar num determinado objeto. A mente se retira e se distancia até mesmo de seus próprios processos internos. A atenção hiperativa ocorre quando a mente é excessivamente estimulada, resultando em distração e fragmentação compulsivas. E a disfunção da atenção ocorre quando nos centramos nas coisas de maneira ansiosa, que não conduz nem ao nosso próprio bem-estar nem ao de outros. Por exemplo, uma pessoa que sofre de compulsão sexual só vê os outros como objetos sexuais e um vendedor pode se envolver mentalmente com outros apenas como possíveis compradores. Nesses casos, a mente está propensa tanto aos desequilíbrios de atenção como aos de conação, que comumente andam de mãos dadas.

A atenção deficiente se aproxima do conceito budista de lassidão e a atenção hiperativa corresponde ao de agitação. Esses desequilíbrios podem ser sanados pela prática da atenção – a capacidade de manter voluntariamente a atenção focada num objeto familiar, sem descuido ou distração; e da meta-atenção – a capacidade de monitorar a qualidade da atenção, percebendo rapidamente quando ela sucumbiu ou à agitação ou à lassidão. Shântideva ressaltou a importância da capacidade de atenção para a satisfação psicológica: “Pelo aumento dessa disposição, a pessoa consegue estabilizar a mente em concentração meditativa, uma vez que com a mente dispersa, ela vive entre as garras de suas aflições mentais”.[12]

Enquanto os praticantes de meditação budistas identificaram e aprenderam a restaurar esses desequilíbrios da atenção, os mesmos problemas foram objetos de interesse de todas as tradições contemplativas do mundo. Um meditador cristão ortodoxo do Oriente escreveu: “Observando atentamente o próprio coração, aumentando a consciência de si mesmo, o aspirante alcança a nepsis (‘sobriedade’ ou ‘vigilância’) e a diakrisis (‘discernimento’ ou ‘discriminação’, a capacidade para distinguir os pensamentos positivos dos negativos)”.[13]  E Joseph Maréchal segue na mesma linha ao escrever:

“Não se pode chegar à contemplação sem uma atenção prolongada, pelo menos por alguns instantes; então a atenção atua sobre os elementos psicológicos à maneira dos polos de um magneto, que são limalhas de ferro imantadas. É possível que a característica da contemplação seja mais uma profunda orientação do ser humano numa intuição ou voltada para uma intuição?”[14]

Desequilíbrios cognitivos

Uma pessoa que sofre de um grave desequilíbrio cognitivo está radicalmente dissociada da realidade e é, em geral, diagnosticada como vítima de alguma espécie de psicose. Em geral, as pessoas normais também propendem a desequilíbrios cognitivos, que constituem a origem de muitos distúrbios mentais. Esses desequilíbrios são frequentemente considerados como inerentes à natureza humana, mas essa é uma suposição à espera de ser desafiada por estudos empíricos rigorosos.

Prosseguindo a análise dos três tipos de desequilíbrios, a deficiência cognitiva é caracterizada pela incapacidade de perceber o que está presente nos cinco campos da experiência sensorial e na mente. Quando nos encontramos dissociados do que está ocorrendo tanto à nossa volta como em nosso interior, estamos sofrendo do distúrbio da deficiência cognitiva. A hiperatividade cognitiva entra em ação quando confundimos nossas projeções conceituais com a verdadeira percepção – quando não conseguimos distinguir as realidades percebidas das suposições e fantasias sobrepostas. Os psicóticos fazem isso de formas extremadas, enquanto as pessoas normais são mais prudentes, mas a maioria de nós encontra-se no mesmo espectro da hiperatividade cognitiva, o que resulta em sofrimento mental desnecessário. Finalmente, a disfunção cognitiva ocorre quando compreendemos mal as coisas, por alguma falha ou em nossos sentidos físicos ou em nossa capacidade para interpretar o que está acontecendo.

Superar esse desequilíbrio cognitivo é um dos propósitos mais importantes da prática budista e, para isso, uma das principais intervenções é o cultivo da percepção atenta. O primeiro desafio consiste em aprender a dar atenção apenas ao que está sendo apresentado aos nossos sentidos e aos nossos processos mentais internos. Para isso, Buda propôs o seguinte ideal: “No que é visto existe apenas o que é visto: no que é ouvido, existe apenas o que é ouvido; no que é sentido, existe apenas o que é sentido; no que é percebido, existe apenas o que é percebido”.[15] Em seus desdobramentos sobre essa questão, o budismo dá instruções detalhadas sobre como aplicar a atenção a nossa própria presença física e mental no mundo, a relação com os outros seres e com o ambiente inanimado. Existe um volume crescente de pesquisas científicas explorando os efeitos terapêuticos dessa prática de atenção, grande parte delas inspirada pela obra de Jon Kabat-Zinn e seu extremamente bem–sucedido programa de redução do stress com base nessa prática.

Desequilíbrios afetivos

Esses desequilíbrios costumam ocorrer em decorrência de desequilíbrios de conação, atenção e cognição e podem ser classificados como de três tipos. A deficiência afetiva apresenta-se em sintomas como de apatia emocional e uma sensação de fria indiferença para com os outros. A hiperatividade afetiva é caracterizada pela alternância entre entusiasmo e depressão, esperança e medo, adulação e desprezo, desejo obsessivo e hostilidade. A disfunção afetiva ocorre quando as reações emocionais são inapropriadas para as circunstâncias, como comprazer-se com a desgraça alheia. Psicólogos e praticantes de meditação de todo o mundo criaram uma ampla variedade de intervenções para sanar esses desequilíbrios, algumas delas aplicáveis à sociedade em geral, outras inseridas em visões de mundo religiosas. Uma abordagem constituída de quatro intervenções extraída do budismo tem profundidade espiritual sem necessidade de vínculo com qualquer sistema de crenças em particular. A essência dessa prática é curar a compulsão com amabilidade, a distância indiferente com compaixão, a depressão com alegria empática e o preconceito pessoal com equanimidade.

O efeito geral dos quatro desequilíbrios mentais acima mencionados é a constante insatisfação, que só é aliviada superficialmente nos momentos de entrega a estímulos mentais e sensoriais prazerosos ou pelo uso de drogas que alteram o cérebro. Com pouca fé em seus próprios recursos internos para a felicidade genuína, muitas pessoas tornam-se dependentes de estímulos prazerosos ou de supressores químicos da insatisfação, mas assim que esses estímulos são removidos, desaparece a sensação de bem-estar. Da perspectiva da ciência contemplativa, o primeiro propósito pragmático da psicologia é explorar os estados da psique para identificar quais levam à perpetuação do sofrimento e quais levam à felicidade genuína. Assim como trocar o uso de combustíveis fósseis por energia solar, nós temos a oportunidade de nos afastar da dependência obsessiva de estímulos prazerosos e adotar o cultivo da perfeita saúde mental como base da felicidade.

Uma hipótese fundamental por trás dessa busca é que em termos de natureza humana, nosso estado habitual é marcado pela angústia e sofrimento, mas nosso potencial é para a saúde e a satisfação. O desequilíbrio não é inerente a nossa mente, mas causado pelo hábito e, portanto, por meio de um esforço apropriado e contínuo, os desequilíbrios podem ser sanados, resultando num estado de bem-estar que não depende de estímulos sensoriais, químicos, intelectuais ou estéticos prazerosos. Esta é uma área na qual a ciência e todas as tradições contemplativas podem colaborar em benefício de todo mundo.

Existe uma profunda complementariedade entre as abordagens científica e contemplativa ao estudo da psique. As ciências comportamentais, a psicologia e a neurociência lançaram luz sobre os processos cognitivos que nos permitiram sobreviver, reproduzir e ter a experiência do bem-estar hedonista. As tradições contemplativas mostram como podemos encontrar a felicidade genuína, ou o bem-estar eudemônico, e explorar as dimensões espirituais de nossa existência. O bem-estar hedonista e o eudemônico não costumam se opor um ao outro. Pelo contrário, sem o bem-estar hedonista, incluindo a boa saúde e comida suficiente, roupa e abrigo, é difícil embora não impossível se alcançar o bem-estar eudemônico. Da mesma maneira, quanto mais cultivamos a felicidade genuína que vem de dentro, mais conseguimos valorizar os simples prazeres da vida. Apesar de o bem-estar hedonista não ter valor intrínseco, ele pode ajudar na busca de uma vida plena no sentido, integrando a felicidade genuína, a verdade e a virtude.

Fonte:

Wallace, B. Alan. Ciência Contemplativa: onde o budismo e a neurociência se encontram. São Paulo: Cultrix, 2009. Digitação e revisão: Lama Jigme Lhawang

[1] Aristóteles, Nicomachean Ethics. Trad. Terence Irwin (Indianápolis: Hackett, 1985), 1098 a16.

[2] Santo Agostinho, Letters 100-155 (Epistolae). Trad. Roland Teske (Hyde Park, NY: New City Press, 2003), 118, 13.

[3] Santo Agostinho, The Confessions. Trad. Maria Boulding (Hyde Park, NY: New City Press, 1997), 33.

[4] O Dalai Lama, Sua Santidade, e Howard C. Cutler, M.D. The Art of Happiness: A Handbook for Living (Nova York: Riverhead, 1998), 15.

[5] Joseph Maréchal, S.J., Studies in the Psychology of the Mystics, trad. Algar Thorold (Londres: Burns Oates, & Washbourne, 1927), 101.

[6] Shantideva, A Guide to the Bodhisattva Way of Life, trad. Vesna A. Wallace e B. Alan Wallace (Ithaca, NY: Snow Lion, 1997), IX:1.

[7] John Burnaby, Amor Dei: A Sutdy of the Religion of St. Augustine (Norwich, Inglaterra: The Canterbury Press, 1991, 107.

[8] Paul Ekman, Richard J. Davidson, Mathieu Ricard e B. Alan Wallace, “Buddhist and Psychological Perspectives on Emotions and Well-Being”. Current Directions in Psychological Science 14, no. 2 (2005): 59-63.

[9] Tim Kasser, The High Price of Materialism (Boston: MIT Press, 2002), 22.

[10] H.L. Bond, trad. Nicholas Cusa: Selected Spiritual Writtings (Nova York: Paulist Press, 1997), 242.

[11] Shântideva, A Guide to the Bodhisattva Way of Life, I:28.

[12] Ibid., VIII:1.

[13] Kallistos Ware, “Ways of Prayer and Contemplation: I. Eastern”, em Christian Spirituality: Origins to the Twelfth Century, org. Bernard McGinn e John Meyendorff (Nova York: Crossroad, 1985), 398.

[14] Maréchal, Studies in the Psychology of the Mystics, 168.

[15] Udâna 1, 10.

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